Visão do Correio

Os recados na Assembleia das Nações Unidas

A reforma da ONU é uma pauta repetida em cada assembleia e enterrada logo depois. Mas a crise de legitimidade que a instituição enfrenta hoje é de uma escala diferente

 O Brasil abriu os trabalhos, como faz desde 1955 -  (crédito: Ricardo Stuckert.)
O Brasil abriu os trabalhos, como faz desde 1955 - (crédito: Ricardo Stuckert.)

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira, colocou em cena duas visões de mundo que dificilmente poderiam ser mais distintas e escancarou a paralisia de uma instituição que deveria arbitrar a diferença entre elas. O Brasil abriu os trabalhos, como faz desde 1955, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao púlpito com um discurso de assuntos amplos: criticou o imobilismo do Conselho de Segurança, defendeu o multilateralismo, cobrou ação climática, falou em soberania da América Latina e afirmou, sem rodeios, que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Nos momentos finais, cedeu ao calendário: falou em democracia contra negacionismo, em interferência estrangeira nas eleições e na solidez do sistema eleitoral brasileiro. Eram recados para dentro, não para o plenário da ONU. 

Donald Trump fez o caminho inverso. Começou pelo inventário doméstico: a economia como "inveja do mundo", as forças armadas como "as mais poderosas da Terra", a tecnologia norte-americana sem rivais. Só depois virou para o cenário externo, onde anunciou que os EUA usarão "poderio militar incomparável" na América Latina se necessário, comparou cartéis de drogas ao Estado Islâmico, declarou Cuba um Estado falido prestes a cair e chegou a ameaçar "aniquilar" o Irã antes de recuar para um convite ao isolamento econômico do país.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Sobre o Brasil — maior economia do Hemisfério Sul, parceiro comercial relevante, país com quem Washington mantém uma disputa tarifária aberta —, Trump não disse uma palavra. O silêncio americano é, por si só, um dado diplomático. Não ignorar um adversário, mas ignorar um interlocutor com quem se está em conflito ativo sugere que a relação bilateral ocupa um espaço menor na agenda de Washington do que Brasília gostaria. 

O episódio, porém, ilustra um problema maior do que a relação bilateral. Num mundo em que a maior potência militar ignora parceiros comerciais no plenário da principal organização multilateral do planeta e em que o representante de uma nação emergente usa o mesmo plenário para mandar recados eleitorais ao próprio eleitorado, fica a pergunta inevitável: para que serve a ONU? A resposta foi dada pelos próprios participantes.

Lula foi explícito: afirmou que a organização "está falhando em uma de suas missões mais elevadas" e que a credibilidade da instituição nunca esteve tão baixa. O próprio secretário-geral António Guterres, em seu último discurso de abertura, reconheceu o impasse: alertou para um mundo em risco de fragmentação caso não haja "uma estrutura comum de direito internacional e regras compartilhadas".

No mais, a Assembleia Geral não produziu nenhuma resolução, nenhum acordo, nenhum mecanismo novo de contenção de conflitos. Produziu discursos: alguns importantes, outros eleitoreiros, todos sem força vinculante. O Conselho de Segurança, com seu direito de veto e sua composição do pós-guerra, segue paralisado diante de conflitos que matam civis todos os dias — 2025 registrou o maior número de guerras desde a Segunda Guerra Mundial.  

A reforma da ONU é uma pauta repetida em cada assembleia e enterrada logo depois. Mas a crise de legitimidade que a instituição enfrenta hoje é de uma escala diferente, reconhecida pelo próprio secretário-geral, cobrada pelo representante do maior país da América Latina e ignorada pelo líder da maior potência militar do mundo. Quando três dos principais atores de uma assembleia chegam à mesma conclusão sobre a impotência do foro em que estão reunidos, o sinal não poderia ser mais claro. A ONU precisa ser reformada, seja na composição do Conselho de Segurança, seja nos mecanismos de tomada de decisão, seja na capacidade de implementar o que delibera.

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 23/09/2026 05:00
x