
Marcelo Thomé — vice-presidente da CNI, presidente do Instituto Amazônia+21 (IAMZ+21) e da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (Fiero)
Quando a pauta é a Amazônia, é natural que nosso foco esteja na floresta, reconhecidamente um patrimônio ambiental de valor incalculável para o Brasil e o planeta. Mas para olhar verdadeiramente para o território, é preciso enxergá-lo por completo, com lentes que alcancem também as pessoas que estão ali.
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A Amazônia Legal convive com desafios sociais incompatíveis com suas possibilidades. Seus cerca de 28 milhões de habitantes, distribuídos por nove estados, enfrentam desigualdades acentuadas em relação ao restante do Brasil. Quase metade da população ocupada está na informalidade e, coincidentemente, a mesma proporção (46,3%) recebe até um salário mínimo, quando no restante do país os percentuais chegam a 30,9% e 32,8%, respectivamente. Além disso, mais de um terço dos amazônicos — por volta de 35% das pessoas — está em situação de vulnerabilidade à pobreza, vivendo em domicílios com renda per capita inferior a meio salário, ante 19,8% no restante do Brasil.
O desafio fica ainda mais evidente quando olhamos para as próximas gerações. Segundo a Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, 20,5% dos jovens amazônicos não estudavam, não trabalhavam e não procuravam trabalho. São talentos que precisam encontrar caminhos para desenvolver seu potencial dentro da própria região.
A ausência da economia formal cria vazios. E o dito popular nos lembra que espaço vazio é espaço a ser ocupado. Resta saber por quem. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a cocaína apreendida em 2024 já representa a sexta "commodity" mais valiosa da Amazônia Legal, movimentando mais do que cadeias tradicionais da economia regional.
Essas disparidades e suas consequências nos colocam diante de uma questão que precisa ser parte importante do debate sobre o futuro amazônico: a de que manter um patrimônio ambiental dessa dimensão passa, fundamentalmente, por criar oportunidades para quem chama o bioma de casa.
O Observatório da Amazônia, órgão do Instituto Amazônia 21 responsável por monitorar e analisar a região a partir de informações oficiais, identificou que municípios mais associados a uma economia predatória, marcada por atividades como garimpo, grilagem e ciclos de desmatamento, apresentam também maior volatilidade econômica.
Se o extrativismo irresponsável deixa como marca a instabilidade, fortalecer atividades produtivas capazes de produzir riqueza de forma duradoura é parte da resposta. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) já sinalizou que, entre os 11% dos municípios brasileiros que conseguiram elevar sua renda per capita nas últimas duas décadas, 60% registraram aumento da atividade industrial. Isso acontece porque o segmento gera empregos de maior qualidade, impulsiona inovação, fortalece fornecedores locais e cria mercados capazes de transformar vocações regionais em negócios sustentáveis.
É esse o caminho que precisamos construir para a Amazônia: uma economia formal, produtiva, próspera e ambientalmente responsável. E é importante dizer que industrializar a região não significa reproduzir modelos ultrapassados, mas desenvolver uma nova indústria, descentralizada, inclusiva e integrada às cadeias produtivas, baseada na qualificação das pessoas, na agregação de valor e na conservação dos ativos naturais.
Para isso, é preciso também corrigir uma distância importante entre potencial e investimento. A Amazônia Legal responde por 26% do valor gerado pela agropecuária brasileira, mas foi alvo de 19,2% do crédito rural entre 2013 e 2024, que pode financiar excelentes projetos agroflorestais. Na indústria, a região é responsável por 9% do valor gerado no país, mas recebeu apenas 3,9% dos desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinados ao setor no mesmo período.
O potencial da floresta é mais do que claro. Mas não haverá futuro se não enxergarmos a região por inteiro. É preciso ir além da preservação do meio ambiente, construindo soluções que conectem capital, conhecimento e território, com as pessoas no centro. O objetivo é que mais riqueza seja produzida e que ela permaneça na Amazônia. Porque, para manter a floresta em pé, é preciso criar oportunidades para quem vive nela. E uma Amazônia verdadeiramente sustentável precisa ser, acima de tudo, uma Amazônia próspera.
Opinião
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