Visão do Correio

O encontro que o mundo observa

O Brasil precisa manter negociações próprias com Washington e Pequim, tratando cada relação por seus méritos específicos, sem se deixar transformar em peça no tabuleiro de nenhum dos dois

. -  (crédito:  AFP)
. - (crédito: AFP)

A visita do líder chinês Xi Jinping à Casa Branca nessa quinta-feira — recebido com tapete vermelho, revista de tropas e sobrevoo do bombardeiro B-2 — foi mais do que protocolo diplomático. Foi um sinal de que, apesar da rivalidade estrutural entre Estados Unidos e China, os dois países reconhecem que o confronto aberto tem custos que nenhum dos dois está disposto a pagar. Xi pediu "não conflito e não confronto". Trump falou em "amizade verdadeira baseada no respeito mútuo". A linguagem é diplomática e calculada, mas o fato de que ela existe, e que foi dita em cerimônia pública na Casa Branca, já diz algo.

A relação entre China e Estados Unidos é o eixo em torno do qual gira boa parte da economia global. Cadeias de suprimento, mercados de tecnologia, rotas comerciais, fluxo de capital, preço de commodities: praticamente tudo que movimenta o planeta passa pela capacidade e pelo desejo dos dois países. Quando as duas potências atritam, o custo se distribui pelo mundo. Quando cooperam, os benefícios também. Para as economias que vivem entre os dois polos — o Brasil entre elas —, a equação é simples na teoria e complexa na prática: o melhor cenário é aquele em que Washington e Pequim encontram regras de convivência que estabilizem o ambiente global, sem que nenhum dos dois exija alinhamento exclusivo de seus parceiros.

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O tema da inteligência artificial (IA), que Trump havia anunciado como central na reunião, expôs a única divergência explícita do encontro. Xi indicou preocupação com a regulação da tecnologia e defendeu que o desenvolvimento da IA "permaneça sempre sob controle humano". Trump, que nas últimas semanas tem feito apelos ao avanço acelerado da IA para não perder terreno para Pequim, ouviu em silêncio. A contradição é reveladora: cada lado quer liderar a corrida e, ao mesmo tempo, quer que o outro desacelere. O acordo sobre IA, se vier, será um dos mais importantes da década.

Para o Brasil, a lição prática desse encontro é que o país não pode depender do resultado das conversas de outros para definir sua política externa. A estabilidade que uma boa relação entre China e Estados Unidos pode trazer ao cenário global é bem-vinda — e o Brasil deve torcer por ela. Mas torcer não é estratégia. O país precisa manter negociações próprias com Washington e Pequim, tratando cada relação por seus méritos específicos, sem se deixar transformar em peça no tabuleiro de nenhum dos dois. Diversificar parcerias não é neutralidade passiva. É autonomia ativa.

O diálogo entre Trump e Xi não resolve as tensões estruturais entre as duas potências, nem era esse o objetivo. Mas demonstra que, mesmo entre rivais com interesses profundamente opostos, a conversa direta é preferível ao silêncio armado. É uma lição que vale além de Washington. Enquanto houver mesa de negociação, há possibilidade de diálogo e de acordo.

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Por Opinião
postado em 25/09/2026 06:00
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