OPINIÃO

IA: uso racional é urgente 

Se quisermos garantir um planeta habitável para as próximas gerações, não devemos abusar da inteligência artificial

 Os data centers devoram 414 terawatts-hora por ano — cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade -  (crédito:  wallpaperbetter)
Os data centers devoram 414 terawatts-hora por ano — cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade - (crédito: wallpaperbetter)

 Eu fiz, você fez, nós fizemos até para nossos gatos e cachorros — a bendita foto de como seríamos nos anos 1980. Muitos de nós sabemos bem como éramos naquela década: crianças de chinelo de dedo, camiseta e shorts Hering ou Sulfabril e, na cabeça, o tenebroso corte chitãozinho-xororó. Os mais riquinhos também levavam uma mochila da Company nas costas; lá em casa, usávamos Kompany mesmo. Mas a tendência (recuso-me a usar a palavra em inglês) era irresistível: queríamos ver o "nosso eu" de hoje caracterizado como os personagens do Clube dos Cinco, ou da Garota de Rosa-Choque. 

Uma brincadeirinha despretensiosa, mas que, multiplicada por 2,3 milhões, deixa de ser assim tão inofensiva. Esse foi o número de montagens feitas no ChatGPT, segundo dados da desenvolvedora do bot, a OpenAI. O problema é que, para processar a imagem, gasta-se energia e, indiretamente, água. 

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Não é uma preocupação exagerada. A inteligência artificial é faminta de energia. Segundo a Agência Internacional de Energia, os data centers (prédios imensos onde ficam os processadores e armazenadores de dados) devoram 414 terawatts-hora por ano — cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade. O impacto da IA é evidente: em cinco anos, de 2020 a 2025, o volume cresceu 12%. Mas, somente em 2025, o salto foi de 17%. A previsão da agência é que, até 2030, a demanda mais do que dobrará. 

Individualmente, a minha e a sua foto com gel no cabelo consumiram uma fração irrisória de energia. Mas, multiplicado por 2,3 milhões, o cenário é outro. Até porque cada hora é uma tendência nova: foto estilo personagem Disney ou Pixar, foto de adulto com cara de bebê, foto ao lado de uma "celebridade"… Sem contar as que virão no Natal e o sem número de imagens geradas por IA toda vez que morre um famoso: todo mundo quer mostrar seu ídolo chegando ao céu e sendo recebido por artistas já falecidos.

Juntando texto, imagem e vídeo, a plataforma Drobnjak AI estima que, em 2025, cerca de 3,2 bilhões de consultas foram enviadas diariamente para o ChatGPT, que é apenas um dos bots existentes, fazendo companhia à Meta AI, ao Gemini e ao Microsoft Copilot, citando os maiores. Esse número provavelmente aumentou bastante em 2026, quando 1,4 bilhão de pessoas têm acesso a esse tipo de inteligência artificial.

Evidentemente, não é o usuário que tem de assumir a conta da demanda energética e hidráulica (os data centers usam de 10 milhões a 25 milhões de litros de água por dia para resfriar os equipamentos). São as big techs que precisam desenvolver urgentemente tecnologia para reduzir o consumo de recursos de IA, além de, cada vez mais, se comprometer com fontes de energia renovável.

Mas, no fim, quem paga somos nós. Estamos torrando com as ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes, uma consequência das mudanças climáticas puxadas especialmente pelo setor energético, responsável por 34% das emissões de gases de efeito estufa.

Embora a culpa não seja das nossas fotos dos anos 80, como consumidores, podemos colaborar. Por exemplo, trocar o chat pelas ferramentas de busca da internet quando precisamos de uma informação simples — elas gastam 15 vezes menos energia do que os bots. Também podemos parar de puxar conversa com o algoritmo e, quem sabe, mandar mensagem para um amigo. Quando o uso da IA realmente é necessário, há outras medidas, como pedir para ele limitar uma pesquisa a cinco tópicos. 

Não podemos mais ignorar a inteligência artificial e nem devemos — bem utilizada, é a maravilha do mundo moderno. Mas, se quisermos garantir um planeta habitável para as próximas gerações, não devemos abusar dela. Ou se corre o risco de não ter ninguém para, daqui a décadas, postar foto de como seria em 2026.

 

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postado em 28/09/2026 05:01
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