Os números estampados nos termômetros pela Europa afora, neste que se apresenta como o verão mais quente nos registros históricos do Velho Mundo, deveriam ser suficientes. Rio, 40 graus, clássico do Cinema Novo brasileiro, já pode ser refilmado em Londres, Paris ou Berlim, e não é mais apenas Jorge Benjor que mora "num país tropical". Mas o que era bênção na letra do compositor cai sobre a humanidade como maldição.
Ainda assim, os repetidos sinais de alerta emitidos pela natureza parecem não ter sido ainda suficientes para impulsionar uma ação global e coordenada — com urgência — para mitigar o ritmo alucinante e os impactos já indisfarçáveis do aquecimento do planeta e da mudança do clima.
A catástrofe da semana passada na fronteira do Nepal com o Tibete chinês produziu cenas que ofuscam os efeitos especiais do cinema apocalíptico. O desprendimento de um bloco imenso e maciço de uma geleira soou como um grito de socorro da Cordilheira do Himalaia. A terra dos lamas budistas e de outros místicos, que evoca a imagem mítica e utópica do Shangri-lá, derrete a olhos vistos, como relatam alpinistas em reportagem publicada ontem pelo Correio.
Entre a urgência desesperada de resgatar possíveis sobreviventes sob o tsunami de lama e atender milhares de atingidos pela avalanche seguida de enchentes, as autoridades nepalesas voltaram a colocar o dedo em uma ferida exposta da crise ambiental: as primeiras vítimas dos fenômenos mais extremos associados a ela são países com participação mínima nas emissões de gases que aceleram o aquecimento global. Mais grave: muitos deles têm recursos escassos para fazer frente às consequências, situação exatamente oposta à dos principais emissores, potências industriais desenvolvidas.
É o caso, por exemplo, das pequenas ilhas do Pacífico, algumas delas identificadas pelos cientistas como destinadas a, possivelmente, submergirem pela elevação do nível dos oceanos. Sobre ela, por sinal, testemunham as repetidas ocorrências de desprendimento de vastos icebergs, sobretudo das geleiras da Antártida.
Desde o Protocolo de Kyoto, firmado no início do século, sucedem-se esforços para concatenar medidas capazes de ao menos conter a disparada dos termômetros mundo afora. A mais recente foi o Acordo de Paris, de 2015, ainda considerado insuficiente por muitos estudiosos. Mesmo assim, por duas vezes o principal emissor de gases-estufa retirou-se do tratado, ambas as vezes pela caneta de Donald Trump, irredutível na negação de uma realidade que se impõe à custa de danos materiais e perdas humanas em escala exponencial — mas não nos EUA.
A primeira conferência da ONU sobre o meio ambiente data de 1972, em Estocolmo. Teve como desdobramento a histórica Rio-92. Passadas mais de três décadas desde então, pouco foi feito, muito menos do que o mínimo necessário.
Ao fim da 2ª Guerra, sob impacto do bombardeio atômico a Hiroshima e Nagasaki, cientistas nucleares criaram o "relógio do fim do mundo". A cada ano, avaliam os riscos da escalada armamentista e movimentam os ponteiros para mais longe ou mais perto da meia-noite, a hora fatal. No relógio da natureza, os ponteiros se movem por dinâmica própria. Nele, o tempo corre contra todos nós.
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