Eduardo Pierrotti Rossetti — arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (FAU-UnB) e pesquisador do Vereda
Os domínios e os limites de um campo profissional são constantemente transformados por eventos, pelas ações e movimentações de seus agentes, conforme Pierre Bourdieu explica. Segundo Thomas Kuhn, um paradigma somente é superado quando seu último representante deixa de atuar no campo e, portanto, deixa de tensionar, dilatar, orientar e contribuir para suas transformações. A morte de Oscar Niemeyer em dezembro de 2012 marca esse momento histórico com precisão, encerrando um ciclo.
Durante décadas, Niemeyer permaneceu projetando e inventando soluções formais extraordinárias, construindo uma carreira longeva e uma trajetória profícua, com centenas de obras no Brasil e no mundo, sendo impossível pensar no século 20 sem a sua arquitetura, como destaca Eric Hobsbawm. Ao mesmo tempo em que suas arquiteturas se tornavam fatos marcantes na paisagem como ícones urbanos, sua trajetória passa a ser paulatinamente estudada, analisada e comparada. Niemeyer sempre se manifestou sobre a própria arquitetura de modo assertivo e, mesmo quando parecia calmamente explicando, enquadrava aspectos e pautava como ela deveria ser apreciada.
Para isso, ele escreveu muitos textos, memoriais, livros autobiográficos, além de conceder entrevistas para jornais, revistas e programas de televisão. A historiografia da arquitetura do século 20 sempre incluiu sua contribuição paradigmática para abordagens espaciais e técnicas, destacar qualidades formais tão singulares, além de apontar as correlações entre ele os jogos de poder, tomando sua contratação para as obras públicas mais importantes do Brasil em coisa atávica, onipresente. Aliás, diante de quaisquer objeções sobre seu domínio na contratação de obras públicas ou perante abordagens críticas sobre aspectos de seu trabalho, ele mesmo e/ou porta-vozes investidos, manifestavam-se desacreditando os comentários e relativizando os questionamentos, reiterando lugar central de Niemeyer no campo. Em 2009, a ideia estapafúrdia de inserir uma estrutura com 100 metros de altura em plena Esplanada mobilizou a academia e a opinião pública para engavetá-la. Nos anos 1990, até mesmo com Lucio Costa houve uma refrega sobre a construção do Anexo-2 do STF.
Esse caso foi apenas uma das muitas oportunidades profissionais que o arquiteto teve para ampliar, refazer ou estudar novas versões de propostas de suas próprias obras. Ele sempre se valeu de sua enorme habilidade, desenhando e registrando em croquis, miríades de soluções que depois seriam aprimoradas e detalhadas no processo normal de desenvolvimento de um projeto de arquitetura. Para transformar os croquis em informações técnicas e construtivas seguras, correspondentes às especificidades de um projeto de arquitetura, Niemeyer interagia com diferentes equipes, nas diversas etapas, num processo fundamental para a consecução de uma obra.
Ao longo de sua vida, Niemeyer produziu um volume incrível de desenhos, e sua experiência transformou o próprio desenhar, deixando as representações cada vez mais concisas. Ideias de projeto registradas em seus desenhos têm forte apelo imagético, são especulações técnicas e espaciais importantes para reflexão sobre processos do projeto arquitetônico, mas hoje, nada disso, nenhum dos desenhos, pode ser honestamente tomado como base para ser transformado em projeto de "arquitetura de Oscar Niemeyer" por razões elementares, já que ele não está mais em atuação. Lugares outrora reservados para obras não construídas devem ser objetos de concurso público. Hoje, toda essa documentação gráfica tem inestimável valor histórico e historiográfico, mas não tem legitimidade para ser tomada como índices de projeto. Os desenhos de Oscar Niemeyer constituem um material valioso que deve integrar acervos e assegurar pesquisas, estudos e análises, contribuindo com as reflexões sobre as complexidades do campo e da produção da arquitetura brasileira.
Portanto, não é lógico pretender "tirar no papel" quaisquer sugestões de projeto para Brasília e para o Brasil. É preciso se posicionar de maneira contrária a quaisquer movimentações que aventem essa ideia oportunista. Aquilo que no papel está, no papel deve ficar!
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