Visão do Correio

COP da Desertificação também deixa a desejar

Líderes reunidos na Mongólia não conseguiram chegar a um acordo que viabilize um mecanismo global de combate à seca, evidenciando, mais uma vez, a crise profunda pela qual passa o multilateralismo

Cerca de 40% das terras do mundo estão degradadas e, dessa forma, mais vulneráveis à desertificação.  -  (crédito: MONIRUL BHUIYAN)
Cerca de 40% das terras do mundo estão degradadas e, dessa forma, mais vulneráveis à desertificação. - (crédito: MONIRUL BHUIYAN)

Fora dos holofotes, a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) acaba de ser concluída na Mongólia com um desfecho similar ao das últimas edições da correlata mais famosa, a COP do Clima. Líderes reunidos em Ulaanbaatar não conseguiram chegar a um acordo que viabilize um mecanismo global de combate à seca, evidenciando, mais uma vez, a crise profunda pela qual passa o multilateralismo. Ainda que não faltem dados científicos e extremos climáticos que demonstrem a gravidade da questão, prevaleceram entraves já conhecidos, como a oferta limitada de financiamento e a oposição ativa dos Estados Unidos às políticas verdes.

Secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad verbalizou o caminho a ser seguido no início da convenção: "À medida que a seca se intensifica e a degradação da terra se acelera, a conferência deve impulsionar soluções práticas e viáveis — desde a restauração de terras e solos degradados até o fortalecimento da relação entre terra e água — para que as comunidades possam prosperar". Ao que parece, o roteiro ficou para a próxima edição da cúpula: em 2028, no Egito, que já defendeu a adoção internacional de acordo legais obrigatórios, pondo fim à dinâmica de compromissos voluntários. 

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Não há outra saída. Estima-se que cerca de 40% das terras do mundo estão degradadas e, dessa forma, mais vulneráveis à desertificação. Dados das Nações Unidas indicam que, desde 2000, a frequência e a duração das secas aumentaram 29% em todo o planeta. Em um relatório mais detalhado sobre os efeitos do fenômeno entre 2023 e 2025, a organização internacional mostrou que ninguém está a salvo: 90 milhões de pessoas no leste e sul da África enfrentaram fome aguda em razão da pior seca já registrada; níveis recordes de baixa dos rios em 2023 e 2024 na Bacia Amazônica levaram à morte em massa de peixes e botos ameaçados de extinção; no mesmo período, os níveis de água no Canal do Panamá caíram tanto que as travessias foram reduzidas em mais de um terço; e a escassez de água afetou agricultura, turismo e abastecimento doméstico em países da Europa, como a Espanha.

O relatório alertou, ainda, que o custo econômico de um episódio de seca é atualmente duas vezes maior do que era em 2000, com um aumento projetado pela OCDE de 35% a 110% até 2035. Também lembrou que o El Niño 2023-2024 agravou os efeitos dos extremos climáticos para muitas sociedades e ecossistemas vulneráveis. Então secretário da UNCCD, Ibrahim Thiaw ressaltou, à época, que a seca não era mais uma ameaça distante. Ao contrário: "Uma assassina silenciosa que se instala sorrateiramente, consome recursos e devasta vidas em câmera lenta." 

Nada adiantou. Mesmo tendo sobre a mesa de negociação o extenso compilado de dados da UNCCD, a expectativa de que o El Niño 2026-2027 seja o pior dos últimos 50 anos e a pressão da sociedade civil organizada, os delegados em  Ulaanbaatar não tiraram do papel estratégias robustas de combate à desertificação. A diplomacia climática segue desfalecida. E recebeu novo baque em seguida: o reconhecimento inédito feito pela ONU de que a meta do Acordo de Paris não será cumprida.

 Há de se ressaltar que o Brasil protagonizou um dos poucos pontos positivos na Convenção da Desertificação ao apresentar nova meta voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (NDT). O compromisso é de cobrir 3,67 milhões de quilômetros quadrados com medidas de recuperação ou restauração (163 mil) e de prevenção, conservação e manejo sustentável (3,5 milhões) até 2030. Anfitrião da biodiversidade e com quase 40 milhões de pessoas vivendo em áreas suscetíveis à desertificação, o país tem a obrigação de executar o prometido e seguir trabalhando pela ruptura da inércia diplomática que ameaça a sobrevivência do planeta.

 

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Por Opinião
postado em 08/09/2026 05:00
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