O Dia Nacional do Cerrado, celebrado na última sexta-feira, trouxe notícias alvissareiras a respeito do bioma conhecido como o "berço das águas". Informações divulgadas pelo Ministério do Meio Ambiente indicaram uma queda de 18,9% nas áreas atingidas por desmatamento em agosto deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Além desse dado positivo, o Dia do Cerrado foi marcado pela formalização de instrumentos legais que permitam ampliar uma política de proteção dos recursos hídricos da região que abrange 23% do território nacional.
Segundo o monitoramento realizado pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), o Cerrado acumulou uma área desmatada de 238km² em agosto de 2026. É o segundo menor resultado para o mês na série iniciada em 2018. Definitivamente trata-se de um dado relevante, considerando o histórico recente. Nos últimos três anos, o bioma tem sido o mais atingido por ações inadequadas do manejo da terra ou pelo avanço desmedido da fronteira agrícola. Fortemente pressionado pelo agro, atividade exportadora mais relevante no atual estágio da economia brasileira, o Cerrado ainda enfrenta desafios como a expansão urbana desordenada e os extremos climáticos.
Após o período sombrio do governo Bolsonaro, quando houve um desmonte das políticas ambientais, o Brasil passou a remodelar os instrumentos necessários para conciliar preservação e desenvolvimento econômico. Em relação ao Cerrado, a iniciativa mais recente busca implementar uma ação estratégica: garantir a segurança hídrica nacional. Na sexta-feira, o Ministério do Meio Ambiente assinou portaria que define as Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado (Aprhic). O dispositivo legal identifica as regiões que concentram esforços de conservação e restauração para garantir o ciclo hídrico mantido pelo Cerrado.
Essa portaria preenche uma lacuna existente na legislação, que até então previa ações preventivas nas margens e nas nascentes dos rios. Representa, ainda, uma ação governamental sobre um conceito fundamental: recarga hídrica. O Cerrado é responsável pelo abastecimento de oito das 12 bacias hidrográficas do país. Como boa parte do bioma está situado a mais de mil metros de altitude, a água proveniente do Planalto Central abastece regiões como o Pantanal, a Amazônia e o Nordeste. Mais de 90% da água do Rio São Francisco, por exemplo, tem origem no bioma conhecido como savana brasileira.
Para especialistas, a atenção a áreas prioritárias de recarga hídrica assegura o ciclo natural de reposição de recursos hídricos. "Por meio de uma metodologia científica, identificamos e mensuramos essa mecânica que o Cerrado tem de infiltrar, armazenar e distribuir água nos períodos secos. Essa tecnologia levou 60 milhões de anos para ser desenvolvida pela própria natureza", explicou à Folha de S. Paulo Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e um dos responsáveis pelos estudos que subsidiaram a portaria sobre as Aprhic.
O fortalecimento da segurança hídrica do Cerrado constitui um avanço nas ações ambientais do Brasil, com impacto na vida de milhões de cidadãos em todas as regiões do país. Essa ação se junta ao compromisso anunciado pelo governo federal de desmatamento zero até 2030, em um contexto global no qual os extremos climáticos estão cada vez mais reais e ameaçadores. Garantir o fluxo dos recursos hídricos originários do Cerrado equivale a manter a corrente sanguínea de um organismo chamado Brasil. É dever de todos cuidar desse corpo.
