VISÃO DO CORREIO

O socorro exausto

Esgotamento de médicos de UTI não é novidade para quem trabalha no setor

A medicina intensiva existe para cuidar de quem está no limite. O problema é que, cada vez mais, quem cuida também está. O esgotamento de médicos de UTI não é novidade para quem trabalha no setor. É conversado nos corredores, relatado em congressos e documentado em estudos há anos. O que falta, sistematicamente, é que alguém com poder de agir trate o problema como o que ele é: uma crise de gestão, não uma fragilidade individual.

O Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e divulgado na última quinta-feira, ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e no Distrito Federal. O levantamento revela o tamanho da falência estrutural. Os dados são diretos: 48,5% dos médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva apresentam alto nível de esgotamento emocional. Outros 31,2% relatam nível moderado. Somados, quatro em cada cinco intensivistas requerem atenção à saúde mental. Apenas 20,3% estão em situação de baixo desgaste.

Os números sobre despersonalização aprofundam o diagnóstico. Pelo menos 45,5% dos intensivistas relatam algum grau de distanciamento afetivo em relação a pacientes e colegas, um comportamento que, segundo a própria Amib, compromete a qualidade do atendimento e se contrapõe à humanização do cuidado. Quando 16% reportam níveis elevados desse distanciamento, a pergunta deixa de ser sobre o bem-estar do médico e passa a ser sobre a segurança do paciente.

O estudo aponta, ainda, um dado revelador sobre especialização: quanto maior o grau de preparo do médico para o ambiente intensivo, menor o esgotamento. A disparidade entre os sistemas público e privado completa o quadro. O médico do SUS enfrenta remuneração menor, mais vínculos empregatícios e infraestrutura mais precária do que o colega da rede suplementar. O resultado é previsível: maior estresse, maior desgaste e menor capacidade de sustentação a longo prazo.

Durante anos, administrações hospitalares e gestores governamentais trataram o sofrimento emocional das equipes médicas como contingência inevitável da carreira. O estudo da Amib e do CFM deixa claro que essa postura tem consequências concretas sobre a qualidade do atendimento. Equipamentos modernos e leitos monitorados perdem eficácia se quem os opera estiver no limite do colapso físico e psicológico.

A reversão desse quadro exige medidas objetivas. Hospitais públicos e privados precisam reestruturar rotinas de trabalho, coibir jornadas excessivas e garantir apoio psicológico contínuo às equipes. Ao poder público cabe valorizar as carreiras médicas no SUS, ampliar residências de qualidade em medicina intensiva e acabar com a prática de escalar generalistas para UTIs por falta de especialistas. A Amib é direta em sua recomendação: a saúde mental dos profissionais não é pauta secundária. É questão prioritária para políticas públicas. Os dados da pesquisa tornam essa afirmação impossível de ignorar.

 

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