Ensino superior

O custo da permanência no curso de medicina

Histórias de alunos de baixa renda mostram que ingressar na graduação mais disputada é apenas o começo da jornada. Ser aprovado(a) é apenas ultrapassar o primeiro degrau de uma longa e difícil caminhada

Thamires Pinheiro
postado em 21/06/2026 06:00
Pedro Victor Paterra, aluno de medicina da UnB -  (crédito: João Pedro de Lara Resende )
Pedro Victor Paterra, aluno de medicina da UnB - (crédito: João Pedro de Lara Resende )

Para quem observa de fora, a aprovação em medicina costuma representar o fim de um ciclo. Porém, para muitos estudantes de baixa renda da Universidade de Brasília (UnB), a conquista da vaga é apenas o início de uma nova batalha. Entre jornadas em transporte público, dificuldades financeiras, falta de acessibilidade, necessidade de trabalhar e dúvidas sobre o próprio pertencimento dentro da universidade, esses alunos compartilham uma realidade que raramente aparece por trás dos jalecos brancos. Lá dentro, as escalas sociais são logo percebidas. Formam-se castas: os que têm acesso a tudo, bem-nascidos, e os que lutam todo dia até para chegar à universidade. 

As trajetórias reunidas mostram que, embora o acesso ao curso tenha se tornado mais diverso, permanecer nele ainda exige esforço diário, quase heroico. Segundo o consultor jurídico da Associação dos Mantenedores Independentes Educadores do Ensino Superior (AMIES), Esmeraldo Malheiros, a ampliação das vagas, as políticas de cotas e os programas de financiamento ajudaram a democratizar o ingresso em medicina. Para ele, a presença de estudantes de diferentes origens sociais contribui para formar profissionais mais preparados para compreender as múltiplas realidades da população brasileira. Mas para quem vive essa experiência na prática, os desafios continuam presentes muito depois da aprovação. E muitos, até por todas as dificuldades, veem os seus sonhos quase triturados pelas desigualdades sociais que se impõem todos os dias.

Destino improvável

A história de Diego Aguiar, 31 anos, começou muito antes da universidade. Natural de Icaraí de Minas (MG), ele tinha 14 anos quando deixou a casa da família para estudar em um internato ao lado de dois amigos, que compartilhavam um sonho. Ingressou no curso técnico em agropecuária, que permitia alojamentos e permanência dos estudantes. Filho de uma trabalhadora de serviços gerais e de um operário de fábrica, Diego cresceu em uma família que valorizava a educação, mas não tinha condições financeiras para custear uma preparação para Medicina.

Após concluir o ensino médio, trabalhou para ajudar no sustento. Foram anos atuando em empresas de telemarketing enquanto tentava manter vivo seu objetivo. Trabalhar era necessário, mas reduzia o tempo de estudo. Após diferentes experiências profissionais, conseguiu ingressar em um cursinho de baixo custo. A dedicação trouxe aprovação em medicina tanto em Ouro Preto (MG) quanto na Universidade de Brasília (UnB).

A mudança para a capital federal trouxe novos receios. Diego não poderia, sequer, pensar em pedir ajuda financeira aos seus pais. Sem dinheiro para o aluguel, encontrou na CEU, a Casa do Estudante Universitário, a oportunidade de permanecer no sonho. Foi ali que construiu amizades, conheceu histórias semelhantes e ampliou sua visão. Posteriormente, conseguiu emprego, passou a morar sozinho e seguiu o curso. Hoje, aos 31 anos e no 12º período, está próximo de concluir uma trajetória que muitos consideravam improvável. "O garoto que saiu de casa aos 14 anos com um sonho, hoje está conquistando por meio da educação pública".

O próximo desafio é a inserção no mercado de trabalho. Com o destino ainda incerto, Diego pensa em exercer a profissão em sua cidade natal e perto da família. "Quero retribuir tudo que eles fizeram por mim, mas ainda tenho contas pendentes, como por exemplo, um empréstimo que fiz para me manter", disse.

A saga de Joyce

Aos 19 anos, Joyce Lourenço cursa o terceiro período de medicina. Nascida em Ceilândia, passou a infância e a adolescência em escolas públicas. Estudou, inclusive, em uma escola rural localizada no Incra e, mais tarde, concluiu o ensino médio no Recanto das Emas. Desde cedo, percebeu que a preparação oferecida pela escola não era suficiente para disputar uma vaga em um dos cursos mais concorridos do país.

Enquanto muitos estudantes tinham acesso a cursinhos particulares, ela buscava alternativas. Participou de cursinhos sociais, estudava na casa de uma tia e utilizava o auxílio Pé-de-Meia para custear materiais e atividades complementares. Joyce lembra que precisou estudar muito além do conteúdo apresentado em sala de aula. Segundo ela, não era falta de dedicação dos professores, mas de uma realidade que afeta grande parte dos estudantes da rede pública.

Por muito tempo, acreditou que o curso não era um lugar para pessoas como ela. Ninguém em sua família havia, sequer, feito uma graduação. A ideia de ocupar uma cadeira em um curso associado às elites parecia distante.

A aprovação veio pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) por meio das cotas. A notícia foi recebida entre lágrimas e comemoração ao lado da família. Mas a chegada à universidade trouxe novos desafios. Beneficiária da assistência estudantil, Joyce ficou meses sem receber apoio financeiro durante a greve dos técnicos da universidade. Como o curso é em período integral, concilia os estudos com trabalho para conseguir custear equipamentos e livros necessários em cada semestre. Sempre que o semestre se torna mais pesado, lembra da trajetória que a trouxe até ali e do futuro que deseja construir. Desistir não é uma opção para a jovem. "Tento sempre lembrar da trajetória que me trouxe até aqui e imaginar o futuro que me aguarda, o que acaba sendo motivador" afirmou.

Obstáculos para cadeirante 

Quando o nome de Ghabriel Alves Amorim, 22 anos, apareceu na lista de aprovados em medicina, a notícia surpreendeu até as pessoas mais próximas. Nem a mãe e a avó sabiam que ele estava tentando uma vaga. Morador da Cidade Ocidental, em Goiás, e atualmente no quinto período da graduação, ele decidiu guardar o sonho para si até que tivesse certeza de que havia conseguido.

Criado apenas pela mãe, estudou toda a vida em escolas públicas. Sem condições de pagar cursinhos preparatórios, Ghabriel utilizou cadernos usados, materiais gratuitos e videoaulas disponíveis na internet para se preparar para os vestibulares. Posteriormente, recebeu acesso gratuito a um cursinho preparatório on-line voltado para a UnB, ferramenta que ele considera fundamental para sua aprovação.

Mas a realidade de Ghabriel envolve desafios que vão além das dificuldades financeiras. Ele é cadeirante. A condição muda, totalmente, sua rotina dentro e fora da universidade. Problemas no transporte público, falhas em elevadores adaptados, atrasos provocados pela falta de acessibilidade e limitações estruturais em alguns espaços hospitalares fazem parte do cotidiano. "Situações que para muitos dos meus colegas representam pequenos contratempos podem se transformar em obstáculos gigantes no meu dia a dia." diz ele. 

Mesmo antes de entrar na universidade, a caminhada já havia sido difícil. No dia do vestibular, enfrentava uma grave infecção intestinal. Durante a prova, precisou concentrar esforços para permanecer consciente. Em diversos momentos acreditou que não conseguiria concluir o exame. Ainda assim, permaneceu até o final e conquistou a vaga. Hoje, entre os estudos, a rotina universitária e os desafios de acessibilidade, segue construindo uma trajetória que representa muito mais do que uma aprovação.

Doutora Beatriz!

Filha de um motorista de ônibus e de uma confeiteira, Beatriz Silva Leandro cresceu em uma família simples que sempre acreditou no poder da educação. Aos 20 anos, ela está no sexto semestre de medicina.

Durante a preparação para o vestibular, não teve acesso a cursinhos particulares. Estudar medicina parecia um sonho distante para alguém que dependia basicamente de um notebook, videoaulas e materiais compartilhados gratuitamente na internet. Aluna do Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Fernando Pessoa, ela encontrou apoio importante nos professores. Alguns deles, afirma, serão lembrados para sempre.

Apesar do esforço, o processo foi marcado por inseguranças. Muitas vezes, acreditou que não era capaz de alcançar a aprovação. Foi a família e os educadores que insistiram quando ela mesma já não tinha tanta certeza. A recompensa veio com a aprovação após o fim do ensino médio. 

Hoje, porém, a principal dificuldade não está nas provas. Ela mora a cerca de duas horas da universidade, em Valparaíso de Goiás. São quatro horas diárias, em média, consumidas pelo deslocamento. Além do cansaço físico, existe o desgaste emocional provocado pela comparação constante com colegas que aparentam ter rotinas mais estáveis e menos obstáculos.

Mesmo assim, a graduação também trouxe experiências transformadoras. Na universidade construiu amizades importantes, conheceu o namorado e descobriu uma nova forma de enxergar a profissão. A primeira vez em que foi chamada de doutora por um paciente permanece viva em sua memória. Para ela, aquele momento simbolizou algo maior do que uma conquista acadêmica. "Representa a possibilidade de cuidar de pessoas". 

  • Beatriz Silva Leandro, aluna de medicina da UnB
    Beatriz Silva Leandro, aluna de medicina da UnB Foto: João Pedro de Lara Resende
  • Bruna Daniela Pereira, aluna de medicina da UnB
    Bruna Daniela Pereira, aluna de medicina da UnB Foto: Fotos: João Pedro de Lara Resende
  • Diego, aluno de medicina da UnB
    Diego, aluno de medicina da UnB Foto: Fotos: João Pedro de Lara Resende
  • Joyce Lourenço, aluna de medicina da UnB
    Joyce Lourenço, aluna de medicina da UnB Foto: João Pedro de Lara Resende
  • A rotina acadêmica de Ghabriel é marcada pela busca constante por acessibilidade e igualdade de oportunidades dentro e fora da universidade.
    A rotina acadêmica de Ghabriel é marcada pela busca constante por acessibilidade e igualdade de oportunidades dentro e fora da universidade. Foto: Arquivo pessoal
  •  Joyce Lourenço
    Joyce Lourenço Foto: Marilia Milhomen
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação