Laudemir Müller — presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil); Angelo Mauricio — chefe de escritório da ApexBrasil na Índia
Há mudanças na geografia do comércio internacional que, observadas em perspectiva, revelam uma transformação profunda. É o caso da relação comercial entre Brasil e Índia. Em duas décadas, o país asiático avançou entre os principais destinos dos produtos brasileiros. Nos cinco primeiros meses de 2026, as exportações para a Índia cresceram 70%, levando o país à quarta posição entre os destinos das vendas externas do Brasil.
Mais do que compradora, a Índia deve ser vista como parceira estratégica. Consolidada entre as maiores economias do mundo, mantém altas taxas de crescimento e vê crescer a demanda por alimentos, energia, matérias-primas e bens industriais. A demanda doméstica, impulsionada por investimentos em infraestrutura e integração às cadeias globais de valor, é o principal motor desse crescimento.
Os números confirmam o potencial. Com 1,5 bilhão de habitantes e PIB de US$ 4,1 trilhões, a Índia é a oitava maior importadora do mundo, cresceu 6,8% em 2025 e tem projeções acima de 6% ao ano até 2030. O comércio bilateral somou US$ 15,2 bilhões em 2025, recorde histórico que tornou a Índia o quarto maior parceiro comercial do Brasil. As exportações brasileiras chegaram a US$ 6,9 bilhões, crescendo 9,4% ao ano nas últimas duas décadas, quase o dobro do ritmo das vendas para o mundo. A ApexBrasil, por meio da inteligência, identifica 378 oportunidades de negócios no mercado indiano, além de petróleo, açúcar e soja, que respondem por 58% das vendas brasileiras ao país.
Essa relação não se explica só pelos números. Brasil e Índia têm economias mais complementares do que concorrentes. A Índia precisa ampliar sua oferta de alimentos, energia e matérias-primas, enquanto o Brasil é fornecedor de proteínas, açúcar, algodão, celulose, petróleo e minérios. Para a Índia, isso significa segurança de abastecimento; para o Brasil, oportunidade de agregar valor às exportações e atrair investimentos.
A aproximação com a Índia também está inserida em uma estratégia mais ampla da ApexBrasil. O novo Plano de Diversificação de Exportações, com investimento de R$ 210 milhões, busca ampliar a presença das empresas brasileiras em mercados prioritários e abrir oportunidades em diferentes regiões. Nesse esforço, a Índia ocupa posição relevante. Seu mercado e as oportunidades identificadas fazem do país um caminho promissor para ampliar destinos e reduzir a concentração das exportações. Entre essas oportunidades, estão máquinas e equipamentos e celulose. A Índia importa cerca de US$ 4 bilhões em máquinas e equipamentos e US$ 916 milhões em celulose, com potencial de redirecionamento de exportações brasileiras considerado alto nesses mercados.
Essa agenda ganha força também na relação institucional entre os dois países. Brasil e Índia dividem mesa em fóruns como Brics, G20 e G4 e avançaram em instrumentos que facilitam negócios, como o Tratado de Cooperação e Facilitação de Investimentos e o Protocolo de emenda ao acordo de bitributação (DTAA), em vigor desde outubro do ano passado. O fortalecimento desses vínculos faz parte dos esforços da ApexBrasil para ampliar a relevância da Índia para as exportações brasileiras e consolidá-la como foco da diversificação de mercados.
Esse trabalho ganhou novos capítulos. Além de reuniões em São Paulo com lideranças empresariais, a ApexBrasil promoveu um fórum entre empresas dos dois países, inaugurou seu escritório em Nova Délhi e recebeu no Brasil uma comitiva de empresários indianos. Em Brasília, representantes da Confederação das Indústrias Indianas (CII) estiveram na Agência e assinaram um memorando de entendimento com a ApexBrasil, criando um canal permanente de cooperação para intercâmbio de informações e apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas. São iniciativas que mostram que a relação com a Índia já integra um trabalho concreto para ampliar sua relevância nas exportações brasileiras.
Se, há cinco séculos, as rotas em direção à Índia ajudaram a transformar o comércio mundial, hoje o desafio é aproveitar o caminho que o Brasil já começou a percorrer para ir ainda mais longe. Cabe aprofundar essa parceria para consolidar uma relação à altura do potencial de seus povos e economias.
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