
Vinicius Ladeira — diretor adjunto nacional do Serviço Social do Transporte (Sest) e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat) e líder do projeto Transporte e a COP31
A agenda climática vem transformando o papel de diferentes setores no desenvolvimento econômico. Em um cenário em que muitos compromissos já foram assumidos, o desafio é convertê-los em resultados, com políticas públicas, investimentos e cooperação capazes de acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
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Poucos setores traduzem tão claramente esse novo momento quanto o transporte. A atividade responde por uma parcela relevante das emissões globais e, ao mesmo tempo, sustenta a circulação de pessoas, mercadorias e cadeias produtivas. É no cotidiano das operações que a transição passa a orientar decisões, investimentos e inovação.
O transporte brasileiro chega a essa discussão em condições diferentes das que ocupava poucos anos atrás. Nos últimos anos, o setor construiu uma agenda própria para a descarbonização. Produziu estudos, fortaleceu o diálogo entre empresas, governo, academia e organismos internacionais. Em Belém, esse movimento ganhou escala e visibilidade internacional, com o primeiro pavilhão dedicado ao transporte na história das Conferências das Partes (COPs).
A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes e o primeiro Inventário Nacional de Emissões do Transporte são exemplos que sintetizam essa trajetória. As duas iniciativas ajudam a organizar uma base técnica construída de forma colaborativa, capaz de orientar políticas públicas, decisões empresariais e investimentos voltados à redução das emissões sem abrir mão da eficiência logística e da competitividade.
O setor privado tem ampliado sua participação nesse processo, com avanços na renovação de frota, corredores sustentáveis, combustíveis de baixa emissão e ganhos de eficiência operacional. Em paralelo, o setor público vem aprimorando políticas e instrumentos para oferecer maior previsibilidade e viabilizar os investimentos necessários à transformação do setor. Esse processo também permite acumular experiências e identificar desafios comuns à transição.
A praticamente dois meses da COP31, esse percurso encontra na conferência um ambiente especialmente favorável, em uma agenda cada vez mais voltada à implementação e à aceleração de soluções. Essa discussão dialoga diretamente com a realidade do transporte brasileiro, que exige planejamento de longo prazo, inovação tecnológica, segurança regulatória e continuidade nas decisões de investimento.
A diversidade de soluções adotadas pelo setor confirma que não existe uma única rota para a transição energética. Biocombustíveis, eletrificação, renovação de frota, eficiência logística e integração entre os modais compõem um conjunto de soluções complementares. Essa combinação é compatível com a realidade de um país continental e demonstra que a descarbonização precisa considerar diferentes contextos econômicos, operacionais e regionais.
Para que essas soluções avancem em escala, no entanto, é necessário criar condições para que diferentes tecnologias e modelos encontrem espaço para se desenvolver. Isso passa por infraestrutura adequada, acesso a financiamento, segurança para investimentos e políticas capazes de considerar as especificidades de cada modo de transporte. A transição também exige coordenação entre diferentes níveis de governo e o setor produtivo, para que decisões tomadas hoje tenham continuidade e produzam efeitos ao longo dos próximos anos.
Em um setor intensivo em capital e com ativos de longa duração, previsibilidade é parte essencial dessa equação.
É também por isso que a participação do transporte na COP31 não se limita à redução de emissões. O setor pretende contribuir para o debate sobre mobilidade sustentável, adaptação e resiliência da infraestrutura, financiamento, qualificação profissional para os empregos da transição e mecanismos capazes de acelerar investimentos em soluções de baixo carbono.
A experiência brasileira mostra que a transição depende da combinação entre conhecimento técnico, inovação, diálogo institucional e capacidade de cooperação, mas também de soluções compatíveis com diferentes realidades econômicas, operacionais e territoriais.
A agenda climática mundial já definiu o destino. O desafio agora é construir a rota. É essa contribuição que o transporte brasileiro leva à COP31. A experiência acumulada pelo setor oferece elementos para o debate internacional e para a construção de soluções que conciliem redução de emissões, eficiência logística, competitividade e desenvolvimento econômico.
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