
José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras
Antigamente, o velho era objeto de respeito e reverência. Veja-se o culto que a eles faziam, e ainda fazem, os índios, sendo parte de sua cultura essa marca. Estudando a História, vamos encontrar essa quase divinização dos velhos no fato de serem eles a memória dos povos. Sem escrita, a única maneira de guardar o passado era a memória, e esta, quanto mais antiga, mais longe ia no conhecimento de tudo, dos fatos cotidianos até todos os ramos dos acontecimentos.
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Vemos isso no Fedro, de Platão, em que Sócrates conta que o deus Thot levou ao rei do Egito, Thamus, a escrita, remédio contra a dificuldade de aprender e recordar. O rei Thamus reagiu: "O que será de nossas memórias, de tudo que temos na cabeça, se o homem vai ter tudo isso armazenado na escrita? Ela só produzirá nas almas o esquecimento dos que a aprenderem, fazendo com que deixem de exercitar a memória; confiando nesse auxílio a escrita, eles deixarão a caracteres materiais o cuidado de recordar as lembranças de que seu espírito terá perdido o traço".
Os velhos, então, eram os verdadeiros sábios: eram os guardiões da experiência e testemunhas do passado.
Assim, a velhice foi tema constante desde o começo da literatura e continua sendo objeto de reflexão, associada à morte, por parte de filósofos e pensadores.
No tempo bíblico, se vivia muito. E não são poucos os personagens que viviam séculos, o maior deles, Matusalém, avô de Noé, 969 anos, e não sabia quantos filhos, netos e bisnetos tinha, porque todos eram avós e bisavós e já tinham morrido. Até 187 anos, procriou, e Noé, seu neto, até 500 anos. Todos os patriarcas, segundo a Bíblia, viveram muito e funcionaram demais.
Há alguns anos, li uma pesquisa sobre a maneira de os brasileiros encararem o envelhecimento, que revelou que apenas 9% dos entrevistados afirmaram não ter nenhum receio do envelhecimento, ou seja, a maioria receia essa fase da vida. O paradoxo é que todos querem envelhecer, desejando chegar, uns, mais pessimistas, aos 76 ou 85 anos, outros, mais otimistas, aos 96, e ainda outros até 120 anos. Todos acreditando nos novos medicamentos, na medicina preventiva e no progresso das técnicas de cirurgia.
A verdade é que é muito bom fazer aniversário e assistir à mudança de ano. Bobbio, o grande politicólogo italiano, ao definir sua velhice, disse: "A velhice é muito boa, mas com um grave defeito: dura muito pouco".
Mas o tempo é uma invenção dos homens. O que existe é a eternidade, sem começo nem fim. O homem resolveu marcar a vida pelos anos. Nós, cristãos pelo nascimento de Cristo, há 2026 anos, menos que uma gota de água na imensidão dos dias e das noites. Os judeus têm o seu calendário; os chineses, idem; e nós este que seguimos, chamado de gregoriano, porque foi São Gregório que conseguiu essa fórmula de 28 dias em fevereiro; de quatro em quatro anos, 29; e com meses de 30 e de 31 dias — tudo de modo a fechar a rotação da Terra em torno do Sol, nos 365 dias de um ano.
Envelhecer é bom, como dizia Saulo Ramos, meu amigo que em 2013 levou: "A outra solução é pior. Melhor é confessar!". Concordo. A outra solução é não envelhecer, levado por aquele esqueleto com foice na mão, inspirado em Plutão, ou pela velha Morta, a terceira das Parcas, que cortava o fio da vida tecido por Nona e controlado por Décima, velhas memórias dos romanos.
Jorge Amado me dizia: "Até hoje não encontrei nenhuma vantagem na velhice". E terminava contando seu encontro com Pablo Neruda depois da separação de longos anos de exílio. Quando Jorge lhe perguntou sobre determinado amigo comum, Neruda respondeu-lhe: "Não me pergunte por ninguém, todos já morreram".
Isso eu considero o pior de envelhecer: perder todos os amigos de sua geração, um a um, ver indo embora todas as referências da infância, da mocidade, da maturidade e do nosso universo sentimental.
Ainda bem que Deus, como o bondoso Pai que é, nos deu o conforto de nunca os esquecer.
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