
Karolina Roeder — cientista política, professora de ciência política e relações na Uninter e pesquisadora do INCT ReDem (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática)
O primeiro turno de 2026 confirmou algo que vinha se desenhando desde 2018. A extrema-direita se consolidou como força eleitoral no Brasil, com quadros, eleitorado e um partido que, mesmo com uma organização frágil, dispõe da maior fatia individual do fundo eleitoral. O capital político de Jair Bolsonaro foi transferido para os filhos, especialmente Flávio, cuja candidatura presidencial funcionou como motor das candidaturas do PL ao Legislativo. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido na Câmara desde a redemocratização, e terá a maior bancada do Senado a partir de 2027, com 28 senadores.
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Do outro lado, os seis partidos do Centrão — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e Podemos — elegeram juntos 13 deputados a menos que em 2022. Isso chama atenção porque parte desses partidos passou os últimos anos ao lado do bolsonarismo em pautas como a anistia aos condenados do 8 de Janeiro e a oposição sistemática ao governo. Com isso, perderam espaço justamente para o campo político que ajudaram a fortalecer.
O Centrão não é sinônimo de centro ideológico. Os pesquisadores que fazem estudos sobre partidos políticos Bruno Bolognesi, Ednaldo Ribeiro, Adriano Codato e Bruno Fernando da Silva mostram que o centro praticamente desapareceu do sistema partidário brasileiro, e que a direita é predominantemente fisiológica, orientada à obtenção de cargos e recursos mais do que à defesa de programas.
A composição do Centrão não tem uma definição e muda a cada legislatura, os partidos se alinham conforme a matéria em votação. União Brasil, PP e MDB perderam juntos 22 cadeiras, a maior parte delas na federação União Progressista, que, em setembro de 2025, anunciou a saída do governo Lula e o apoio à anistia. PSD, Republicanos e Podemos, por outro lado, ganharam nove cadeiras. O Republicanos merece atenção porque, mesmo próximo do bolsonarismo, tem base própria no eleitorado evangélico e em Tarcísio de Freitas, e por isso não dependeria do PL para ter identidade. Portanto, a disputa no Legislativo de 2026 se deu dentro da própria direita, direita fisiológica x direita bolsonarista, e quem venceu foi o partido que deixou de ser Centrão para se tornar a agremiação da extrema-direita.
Parte do Centrão que mais se aproximou do bolsonarismo e do PL foi vítima de uma estratégia que parecia racional no curto prazo. Esses partidos buscaram ampliar seu poder de barganha diante do Executivo e se proteger de ataques pela direita em suas bases. O custo foi legitimar uma pauta que pertence a outro campo. Experiências de outros países mostram que, quando partidos tradicionais adotam o discurso da direita radical para disputar seus eleitores, raramente são bem-sucedidos. Porque o eleitor que prioriza esses temas tende a preferir o original à cópia.
A força do Centrão sempre esteve nos recursos locais e lideranças regionais, como mostraram as eleições municipais de 2024. Em 2026, a disputa foi mais nacionalizada e polarizada, e tudo indica que o eleitor votou mais por pertencimento político, em boa medida mobilizado pelas redes sociais. Nesse cenário, a direita bolsonarista levou vantagem sobre a direita fisiológica.
O resultado é que os seis partidos terão 234 deputados, cerca de 45% da Câmara e quase o dobro da bancada do PL. E continuarão com mais dinheiro. Como o fundo eleitoral é distribuído conforme o resultado da última eleição geral, o PL deve ficar com cerca de um quarto dos recursos nas eleições municipais de 2028, e o Centrão somará cerca de 40%. É justamente no plano municipal, em suas redes locais, que esses partidos teriam a chance de se recompor e fazer a diferença. O PL segue longe da maioria e precisará desses partidos para qualquer agenda.
Agora, o que muda é a posição de negociação, e o segundo turno vai defini-la. Se a extrema-direita vencer a Presidência, o Centrão tende a se tornar sócio menor de um projeto que não é originalmente seu. Se Lula vencer, o Centrão volta a ser o fiel da balança. É muita ironia do destino a democracia brasileira em 2026 depender do Centrão para sobreviver.
Em qualquer cenário, a parte do Centrão que aderiu ao bolsonarismo parece ter trocado sua autonomia, e a proteção do próprio sistema democrático, por vantagens imediatas. Os partidos tradicionais têm a função de filtrar lideranças e agendas que desafiam as regras do jogo democrático. Quando abrem mão desse papel em troca de ganhos de curto prazo, quem costuma pagar a conta são eles próprios. Em 2026, a fatura chegou nas urnas.
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