
O Brasil não precisa abandonar os pontas, mas tem uma demanda urgente: construir um meio de campo integrado às individualidades. Escrevi sobre isso recentemente na biografia tática de Carlo Ancelotti. O sucesso do italiano como jogador e treinador sempre dependeu do padrão de excelência do setor de criação. O Relatório do Grupo de Estudos Técnicos e do Football Performance Insights da Fifa sobre a Copa de 2026, assinado pelo diretor de desenvolvimento do futebol da entidade, Arsène Wenger, e membros da equipe, como Gilberto Silva, Jürgen Klinsmann, Pablo Zabaleta, Jon Tomasson, Aron Winter, Pascal Zuberbüler e outros eleitos para analisar os 104 jogos, põe o dedo na ferida.
O documento mostra que 67,1% das ações do Brasil no último terço do campo de ataque foram construídas pelas extremidades — e 32,9% pelo meio. Aponta que o Brasil começava a progredir por zonas centrais e deslocava o foco para as beiradas. A ideia era atrair Marrocos, Haiti, Escócia, Japão e Noruega por dentro e encontrar os pontas livres, aptos a conduzir a bola e enfrentar o marcador no mano a mano.
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Os percentuais, isoladamente, não provam que o Brasil fosse previsível nem que atacar pelos lados era um erro, mas levantam uma pergunta: quais eram as alternativas quando o corredor ficava bloqueado? Construir pelo centro não significa progredir por ele. A circulação interior pode servir apenas para deslocar o bloco defensivo antes de a equipe voltar a procurar os pontas. Ameaçar por dentro exige encontrar jogadores entre as linhas, conectar setores, combinar passes e atacar os espaços.
Sem essas opções, o adversário aprende a esperar a bola chegar à ponta. O atacante recebe isolado diante de uma defesa organizada e precisa resolver o lance sozinho. O problema não está no drible, mas em fazer dele a principal resposta a uma dificuldade coletiva.
O Grupo de Estudos Técnicos aponta Vinicius Junior protagonista desse mecanismo. Indica que ele esteve envolvido em 49,8% das posses progressivas do Brasil. Não significa que tenha sido responsável por quase metade dos ataques brasileiros, mas mostra o peso do melhor do mundo em 2024 na evolução com a posse da bola e a necessidade de criar condições coletivas para que o talento entregue ainda mais.
O modelo de jogo do Brasil é comparado ao da Costa do Marfim. Ambos dependentes de um bloco baixo capaz de roubar a bola e entregá-la rapidamente a um ponta veloz, driblador e minimamente faminto pelo gol. Vini era essa figura no Brasil. Yan Diomande, a flecha dos Elefantes. Se a equipe oferece poucas ameaças por dentro, a leitura defensiva do adversário fica mais simples e a qualidade individual é convocada para resolver um problema coletivo.
Grandes equipes não precisam escolher entre organização e talento. O jogo interior atrai marcadores e libera os corredores. A amplitude abre espaço às infiltrações. Combinações e mudanças de direção impedem que o ataque se transforme em uma sequência de duelos individuais. Não se trata de abandonar os pontas, mas de evitar que sejam a única nota na partitura.
O Brasil tem jogadores decisivos. Precisa criar condições para que façam isso mais vezes, e não só quando vencem o um contra um. Repetir o plano é como disco furado. Há necessidade de construir um meio de campo para potencializar o talento. Até mesmo a canção de Tom Jobim e Newton Mendonça, referência deste texto, é aberta ao novo: "(...) outras notas podem entrar, mas a base é uma só (...)".
Opinião
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