
Gerson Brisolara — jornalista especializado em comunicação estratégica e institucional, com atuação na cobertura de carnaval e cultura popular brasileira
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Acompanho futebol desde meus 5 anos e aprendi que arquibancada costuma revelar muito mais sobre o país do que sobre o jogo em si. Já vi o choro de atletas humilhados por insultos raciais e também o silêncio constrangedor de quem deveria agir. Por isso, quando o Campeonato Gaúcho de 2026 terminou sem nenhum caso registrado de racismo nas partidas, o dado chamou atenção.
O resultado está ligado ao Protocolo Zero — Fim de Jogo para o Racismo, iniciativa da Federação Gaúcha de Futebol desenvolvida em parceria com a Odabá Associação de Afroempreendedorismo desde 2023. O projeto reúne ações de prevenção, monitoramento e educação nos estádios, com treinamento de profissionais do futebol e presença de observadores preparados para identificar manifestações discriminatórias.
Segundo a própria federação, ao longo de 46 partidas, o Gauchão 2026 terminou sem registros de racismo, resultado atribuído à combinação de vigilância e campanhas de conscientização. É simbólico. Durante décadas, episódios racistas no futebol brasileiro foram tratados como "provocação de torcida" ou "calor do jogo". Hoje já não há espaço para esse tipo de relativização.
A legislação brasileira também é clara. O racismo é crime inafiançável desde a Lei nº 7.716, de 1989, e, em 2023, a injúria racial passou a ser equiparada ao crime de racismo. Ou seja: não se trata de falta de educação, mas de violação grave de direitos.
Embora o resultado gaúcho seja positivo, o cenário nacional ainda preocupa. Num país onde o futebol mobiliza milhões de torcedores e ocupa lugar central na cultura popular, episódios de racismo nos estádios têm impacto muito além das quatro linhas.
Dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol mostram que os registros de racismo cresceram nos últimos anos. Levantamento divulgado em 2025 apontou mais de 130 casos apenas em 2023, o maior número desde o início do monitoramento, envolvendo jogadores profissionais, categorias de base e torcedores.
Outro estudo analisado pelo Instituto Claro indica que, embora o número de casos tenha diminuído nas últimas décadas, as punições ainda são brandas em muitos episódios. Em outras palavras: o racismo diminui quando há fiscalização e responsabilização, mas a impunidade segue sendo obstáculo.
É justamente nesse ponto que iniciativas como o Protocolo Zero ganham relevância. O projeto gaúcho não se limita a reagir depois da agressão. Aposta na prevenção. Antes mesmo do início da temporada, árbitros, delegados de partida e representantes dos clubes participaram de reuniões técnicas para discutir como identificar e interromper manifestações racistas.
Além disso, a presença de observadores de intolerância nos estádios cria um ambiente permanente de monitoramento. Quando o torcedor percebe que há vigilância e que o tema está sendo tratado com seriedade, o comportamento coletivo começa a mudar.
O movimento gaúcho também acompanha uma tendência mais ampla no futebol mundial. A Fifa e a Confederação Brasileira de Futebol passaram a adotar protocolos mais rígidos para enfrentar o racismo dentro de campo.
Entre as medidas, está o gesto do "X" com os braços, que permite aos jogadores denunciar manifestações racistas durante a partida. A partir desse sinal, o árbitro deve seguir um protocolo escalonado: interromper o jogo, emitir aviso pelo sistema de som do estádio e, se os atos persistirem, suspender ou até cancelar a partida.
Em fevereiro de 2026, o atacante brasileiro Vinícius Júnior, do Real Madrid, foi alvo de ofensas racistas em partida da Liga dos Campeões da Uefa contra o Benfica no Estádio da Luz. O jogador relatou ter sido chamado de "macaco" pelo argentino Gianluca Prestiani, e torcedores também fizeram imitações racistas. O protocolo da Uefa foi acionado e o jogo ficou paralisado por cerca de 10 minutos. Foi o 17º episódio de racismo contra o atleta em aproximadamente dois anos. A lógica é simples: se o racismo interrompe o espetáculo, o futebol precisa reagir com firmeza.
Nesse cenário, o exemplo gaúcho chama atenção justamente por apostar na prevenção. Enquanto o protocolo internacional prevê parar o jogo, o Protocolo Zero busca impedir que ele sequer precise parar.
Ainda é cedo para falar em transformação definitiva. O racismo segue presente na sociedade brasileira e, inevitavelmente, também no esporte. Mas o Gauchão de 2026 mostrou algo importante: quando instituições esportivas assumem responsabilidade e transformam discurso em prática, o futebol pode começar a virar o placar de situação que já demorou demais pra acabar.
Opinião
Opinião
Opinião