
Dario Ferreira — cardiologista, diretor médico corporativo da Rede Kora Saúde e especialista em segurança do paciente e gestão em saúde
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O Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, costuma ser acompanhado de homenagens, e há razões para isso. Mas a data também permite discutir algo menos visível e essencial à prática médica: a medicina só acontece plenamente quando existe confiança. E construir essa confiança se tornou mais difícil.
Quem procura um médico toma decisões sobre o próprio corpo justamente em um momento de maior vulnerabilidade. Aceita um diagnóstico que, muitas vezes, não tem condições de confirmar por conta própria e concorda com tratamentos cujos riscos e benefícios nem sempre consegue compreender integralmente. Exames, protocolos e tecnologia são indispensáveis, mas não substituem essa relação. Quando ela se rompe, a medicina funciona pior. O paciente tende a desconfiar mais das orientações, pode abandonar o tratamento ou até adiar a busca por assistência. No Brasil de hoje, pelo menos três frentes pressionam esse pacto.
A primeira delas é a formação médica. O país tem 453 faculdades de medicina, e quase 270 foram abertas nos últimos 15 anos. No primeiro Enamed, avaliação realizada pelo Ministério da Educação, cerca de 14 mil concluintes de 2025 estudavam em cursos que ficaram abaixo do desempenho considerado satisfatório.
Há divergências legítimas sobre a adoção de um exame de proficiência para o exercício profissional, mas existe um ponto que deveria estar acima dessa discussão: a população precisa ter segurança de que o profissional que chega ao atendimento recebeu formação adequada. Avaliar é importante, mas nenhuma prova substitui uma boa formação. Hospitais, programas de residência e preceptores têm papel decisivo nesse processo porque ensinam, à beira do leito, aquilo que dificilmente cabe em um teste: raciocínio clínico, tomada de decisão, comunicação e responsabilidade diante do paciente.
A segunda frente é a violência. Em 2024, médicos registraram 4.562 boletins de ocorrência relacionados a agressões durante o trabalho, uma média superior a 12 registros por dia. Grande parte desses episódios acontece em serviços de urgência e emergência, ambientes marcados por sofrimento, ansiedade e, muitas vezes, longa espera ou falta de estrutura.
A insatisfação da população com as falhas do sistema é compreensível, mas não pode se transformar em agressão contra quem está na linha de frente. O médico não controla a disponibilidade de leitos, o tamanho das filas ou todos os recursos existentes em uma unidade, embora frequentemente acabe personificando esses problemas. Cabe às instituições investir em controle de acesso, protocolos de resposta, notificação e apoio aos profissionais vítimas de violência. Trabalhar sob ameaça também interfere na qualidade do cuidado. Proteger quem cuida é, em alguma medida, proteger quem precisa ser cuidado.
A terceira frente talvez seja menos evidente, mas está presente no cotidiano: o desgaste da relação entre médico e paciente. Nunca houve tanta informação sobre saúde disponível, mas quantidade não significa necessariamente qualidade. Além disso, temas que antes eram tratados de forma mais técnica passaram a ser atravessados por polarizações, enquanto ferramentas de inteligência artificial são capazes de oferecer respostas em segundos.
A tecnologia pode ampliar o acesso à informação e contribuir para o cuidado, mas não assume responsabilidade por uma decisão clínica. O papel do médico continua ligado ao julgamento, à capacidade de contextualizar informações, de ouvir e de compartilhar decisões com o paciente. Isso exige também uma postura dos próprios profissionais: explicar com clareza, reconhecer dúvidas, admitir incertezas e, quando necessário, reconhecer erros.
Confiança não pode ser exigida nem criada por decreto. Ela se constrói ao longo do tempo e depende de várias partes. O Estado precisa regular a formação médica com rigor. As instituições de saúde devem oferecer condições seguras de trabalho e ambientes em que os erros possam ser identificados e transformados em aprendizado, em vez de simplesmente escondidos. Aos médicos cabe honrar diariamente a confiança que recebem de seus pacientes. E a sociedade precisa compreender que a violência contra profissionais não resolve filas, falta de leitos ou deficiências estruturais.
Mais do que homenagear uma profissão, vale reconhecer que a confiança é uma das bases da assistência em saúde. Preservá-la não é responsabilidade exclusiva de quem veste o jaleco. É um compromisso que envolve médicos, pacientes, instituições e poder público — e do qual depende, em grande medida, a qualidade da medicina que queremos oferecer e receber.
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