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Segundo turno: como discordar sem transformar o outro em inimigo?

Compreender o estado de uma conversa não significa concordar com o conteúdo do outro. Significa perceber quando a interação mudou de natureza

. -  (crédito: Maurenilson Freire)
. - (crédito: Maurenilson Freire)

Sandro Eduardo — professor, pesquisador em neurociência aplicada aos negócios e escritor

No segundo turno, a disputa eleitoral costuma ultrapassar a política e entrar nas relações mais próximas. Famílias, amigos e equipes de trabalho passam a conviver com uma pergunta incômoda: por que uma diferença de opinião consegue alterar a maneira como enxergamos alguém próximo?
O problema começa quando deixamos de discutir uma ideia e passamos a defender uma identidade.
Em sua maioria, opiniões políticas não são processadas pelo cérebro como argumentos. Nem que venham acompanhadas de fatos. Elas se conectam a valores, pertencimento, história pessoal e aos grupos que nos fizeram acreditar que eles nos representam. Quando uma fala ameaça esse conjunto, cresce a tendência de reagir para proteger aquilo que sentimos ser parte de nós. É aí que a escuta diminui e a conversa pode virar confronto.
A neurociência ajuda a explicar esse fenômeno. O raciocínio motivado faz com que aceitemos com mais facilidade informações compatíveis com nossas crenças e resistamos mais às que as desafiam. E o viés não pertence apenas ao outro. Se você acredita que não é influenciado pelo partido que defende, mas o outro sim, pronto! Você está enviesado pelo viés do ponto cego: a tendência de perceber com facilidade os vieses alheios e subestimar os próprios. Todos somos suscetíveis, todos!
Recentemente, interrompi uma conversa entre amigos quando percebi as expressões de aversão e raiva. Disse: “Vocês dois estão com as visões cristalizadas. Não prossigam, não haverá o mínimo acordo e isso vai se transformar numa discussão de opositores”. Eles pararam. Às vezes, identificar o estado da interação é mais importante do que acrescentar mais um argumento.
Na Inteligência NeuroComunicacional, compreender o estado de uma conversa não significa concordar com o conteúdo do outro. Significa perceber quando a interação mudou de natureza. Interrupções, ironias, aceleração da fala, aumento do volume de voz e a necessidade de vencer são sinais de que a conversa pode ter deixado o campo das ideias e entrado numa disputa relacional.
Há estratégias simples para evitar isso. A primeira é separar pessoa de opinião: “Discordo dessa ideia” é muito diferente de “Você é esse tipo de pessoa”. A segunda é trocar o ataque pela investigação: “O que te levou a pensar assim?” obriga os dois lados a sair dos slogans e entrar em razões, experiências e receios. A terceira é reconhecer a emoção sem transformá-la em argumento: irritação não prova que alguém está errado; informa que o estado da conversa mudou.
E existe uma competência pouco valorizada: saber parar. Nem toda conversa precisa terminar em consenso. Preservar uma relação pode exigir reconhecer que, naquele momento, continuar apenas ampliará o conflito.
Mas, agora, serei mais contundente. Em tempos de ultrapolarização, é inteligente identificar ambientes e grupos carregados de motivação militante, nos quais só há disposição para o conflito. Distanciar-se desses espaços não significa fugir da diferença. Significa evitar contextos em que a divergência já foi convertida em hostilidade e tribalismo.
O segundo turno termina. As relações continuam.
Democracia não exige unanimidade. Exige algo mais difícil: conviver com a diferença sem transformar divergência em desumanização.
Talvez essa seja uma competência que não apareça na urna, mas determine a qualidade da sociedade que existirá depois dela.

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Por Opinião
postado em 22/10/2026 21:11
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