
Bruna Andrade Irineu — professora associada da UFMT, vinculada ao Departamento de Serviço Social e aos programas de pós-graduação em política social e em saúde coletiva. Coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Relações de Gênero (Nuepom) da universidade
Lula chegou ao segundo turno atrás. Terminou o primeiro com 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% de Flávio Bolsonaro, e as pesquisas não apontavam mais do que um empate técnico com o senador à frente. Na noite de domingo, a liderança trocou de mãos na apuração até que Lula passou à frente e ficou. Fechou com 51,76% contra 48,24%, cerca de 4,4 milhões de votos de diferença, e se tornou, aos 80 anos, o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para a Presidência.
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A vitória é histórica, mas o que ela revela é mais interessante do que o número. Em três semanas, o eleitorado se moveu mais do que os institutos conseguiram captar. Minha leitura é que o movimento tem duas fontes, e nenhuma cabe sozinha na biografia do presidente.
A primeira é a retomada das ruas e das redes pela esquerda. Durante quase uma década, a extrema direita tratou esses territórios como seus, e o segundo turno mostrou um campo disposto a disputá-los. Nas redes, porém, o terreno é inclinado, porque as plataformas recompensam o conteúdo que gera raiva e favorecem quem sabe operar no conflito permanente. Presença digital não é poder político. O que decidiu a votação foi o caminho da tela até a rua e da rua até a urna. A mobilização digital de André Janones reuniu quase 11 milhões de pessoas, e boa parte delas ocupou as ruas dos maiores colégios eleitorais.
A segunda fonte é menos confortável para a esquerda. Lula não venceu apenas com o seu campo. Venceu porque eleitores e lideranças que nunca votaram nele concluíram que havia algo mais urgente em jogo e passaram a somar com quem antes estava do outro lado. Essa aliança nasceu da rejeição ao bolsonarismo, e não de um programa comum. Frente ampla serve para ganhar eleição. Para governar, cobra concessões.
E governar será mais difícil do que vencer. O Congresso eleito é mais à direita que o atual. O PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e a maior do Senado, com 28 dos 81 senadores. Os partidos de esquerda somam 124 deputados e 16 senadores, longe da maioria em qualquer das casas. Lula dependerá do Centrão para aprovar o orçamento, as reformas e as indicações que passam pelo Senado, entre elas as vagas do Supremo, que exigem 41 votos. O Centrão sabe o preço do que vende, e cobrará caro.
O resultado importa também fora do país. A América Latina e o Caribe vivem um período de avanço da extrema-direita, e o Brasil é o maior país da região. Uma virada desse tamanho mostra que o avanço não é irreversível e devolve a Brasília o papel de referência para governos e movimentos que se sentiam isolados. O peso é também econômico. O FMI projeta que o Brasil, hoje o décimo do ranking, chegue em 2027 à oitava posição, com PIB de US$ 2,8 trilhões. Peso econômico não garante liderança política, que se faz com diplomacia, integração regional e resultado interno.
O espelho do Norte também importa. Em 3 de novembro, os americanos votam nas eleições de meio de mandato, e as pesquisas dão favoritismo aos democratas na Câmara, com o Senado mais incerto. Se Donald Trump perder o Congresso, o trumpismo, modelo do bolsonarismo na linguagem e no método, chegará ao segundo biênio com a agenda travada. Isso tira da extrema-direita brasileira o argumento da inevitabilidade, mas não elege um deputado a menos aqui.
É nas políticas públicas que o risco se torna concreto. O orçamento passa pelo Congresso, e um Legislativo hostil pode esvaziar programas sem revogá-los, cortando verbas, retendo repasses ou condicionando recursos a barganhas. Saúde, assistência social, educação e direitos humanos, que dependem de financiamento contínuo, são as áreas mais expostas. Para as vidas LGBTQIAPN , alvo preferencial do discurso de ódio nas redes, o resultado traz alívio, não garantia. Os direitos vieram em boa parte do Judiciário, e o Supremo passa pelo Senado.
Há ainda um dado que a celebração não deve apagar. No primeiro turno, mais de 33 milhões de pessoas não votaram, 21,08% do eleitorado, a maior taxa desde 1998. Quem fica de fora costuma ser quem paga mais caro para votar, porque mora longe da seção, trabalha no domingo ou não enxerga como uma disputa de cúpula alcança o preço do ônibus.
Um governo eleito por margem estreita, diante de um Congresso adverso e de um quinto do eleitorado ausente, não pode confundir vitória com adesão. A rua e as redes ganharam a eleição e precisam seguir dando sustentação política a Lula. O desafio será manter a confiança da ampla base eleitoral que o governo conquistou no segundo turno.
Opinião
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