Visão do Correio

Nossa democracia no teste da maturidade

Lula escreverá o epílogo de sua vida pública desafiado a vencer uma corrida de obstáculos.

REV-0410-CRONICA -  (crédito: maurenilson)
REV-0410-CRONICA - (crédito: maurenilson)

Os sobressaltos que marcaram o último ato das eleições de 2026 — o décimo pleito presidencial direto desde a redemocratização — descortinam as linhas gerais do enredo para o próximo mandato, desde o primeiro ato. Múltiplos fatores que vinham se acumulando nos últimos anos, sobre o pano de fundo da polarização em escalada da sociedade, confluem numa espécie de tempestade perfeita. Aos 40 anos recém-completados, nossa democracia enfrenta o teste definitivo de maturidade. E terá à frente um governante que ingressa no quarto mandato, feito inédito na história do país, depois de ter virado o resultado do primeiro turno — outra marca sem precedentes. Lula escreverá o epílogo de sua vida pública desafiado a vencer uma corrida de obstáculos.  

Um sintoma captado na reta de chegada expressa em números o significado prático dos impasses que se cristalizam no sistema político e no arcabouço institucional do país. A quatro dias da votação, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizava 804 ações judiciais desde o início da campanha, mais que o dobro das 325 registradas nas eleições de 2022. A disputa no "tapetão", tomando emprestado o jargão do futebol, ganhou corpo — não por acaso — no segundo turno, que até as teclas das urnas eletrônicas sabiam que seria acirrado.

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A judicialização desenfreada dos processos eleitorais cruza linhas com a sucessão das quedas-de-braço travadas, em escala crescente, entre os Três Poderes da República. Em especial, Legislativo e Judiciário disputam terreno palmo a palmo na esfera institucional. O Executivo, no mandato que se encerra, teve porção expressiva de suas atribuições constitucionais abocanhadas pelo Congresso, mais notadamente no que diz respeito ao Orçamento da União.

O mapa político-institucional desenhado para os próximos quatro anos aponta para a multiplicação potencial dos focos de disputa ou mesmo confronto. No Legislativo, o bloco de forças alinhado desde logo ao quarto governo Lula manteve, no fundamental, o espaço — minoritário — que ocupava. Mas o bolsonarismo cresceu, tomando terreno do Centrão e de outras forças de direita. Se o Planalto teve enormes dificuldades de articulação nos últimos quatro anos, é de esperar que elas sejam ainda maiores nos próximos quatro.  O mesmo se pode esperar no Supremo Tribunal Federal (STF), ademais consumido em escândalos e disputas intestinas.

A esse quadro desafiante no plano institucional se somam desafios igualmente cruciais na agenda econômica, a começar pelo de equilibrar as contas públicas, reduzir os juros e encaminhar o país a um novo ciclo de crescimento, sustentável e alinhado com a transição global para a economia pós-carbono. O cenário mundial, aliás, recomenda igualmente cuidados, começando por uma vizinhança em descompasso com a política externa presumível do governo Lula 4 e, em especial, a presença na Casa Branca, por mais dois anos, de Donald Trump — que não escondeu, nos últimos meses, a ambição de ter no Planalto mais um governo aliado.

Por contraditório e difícil que pareça, é na mobilização impressionante dessa sociedade polarizada, um fenômeno testemunhado nas três semanas decisivas do segundo turno, de norte a sul do país, que pode ser traçado o caminho para um reencontro. Em especial, o engajamento da juventude em uma campanha que marca época deve ficar estampada em nossa memória coletiva como um aceno de esperança. O compromisso da nova geração com o futuro político do país se insinua como raiz promissora para que a nossa democracia seja definitivamente aprovada no teste do amadurecimento.

 

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Por Opinião
postado em 26/10/2026 05:00
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