Artigo

O desafio de governar em uma sociedade dividida

A realidade impõe o desafio de governar diante de uma sociedade dividida, uma economia pressionada e instituições fragilizadas e em constante questionamento

Lula terá de lidar com demandas historicamente difíceis para ele e seu partido -  (crédito: Juan BARRETO / AFP)
Lula terá de lidar com demandas historicamente difíceis para ele e seu partido - (crédito: Juan BARRETO / AFP)

Hilton Fernandes — cientista político e pesquisador do Labop FESPSP (Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

Apesar da vitória de Lula na eleição presidencial deste domingo, virando de forma inédita o resultado do primeiro turno com o apoio decisivo de quem foi às ruas e se mobilizou nas redes sociais, o Brasil precisa agora enfrentar o novo período de incertezas sobre seus rumos. Independentemente do posicionamento político-ideológico do presidente, superado o discurso eleitoral, a realidade impõe o desafio de governar diante de uma sociedade dividida, uma economia pressionada e instituições fragilizadas e em constante questionamento.

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O baixo apoio do Congresso, onde partidos de oposição garantiram maioria e lideranças de perfil radical despontaram, tende a dificultar a governabilidade e a tramitação de medidas que fizeram parte de suas promessas de campanha. Nesse cenário, é de se esperar a tradicional negociação de cargos e recursos, que precisará ser mais ampla para agregar partidos que obtiveram bom desempenho nas urnas. Além disso, será necessário um esforço maior e constante a partir de 2027, pois os partidos de oposição têm interesse em apresentar propostas que irão confrontar diretamente o governo federal, com potencial para provocar desestabilização, como ocorreu com Dilma Rousseff em seu segundo mandato.

A questão econômica é de vital prioridade e oferece o conjunto de decisões mais desafiador para Lula. Com a série de benefícios adotados durante este ano para alavancar suas chances eleitorais, o presidente terá a difícil missão de não ser julgado por "estelionato eleitoral" caso não consiga implementar suas promessas. Como não terá a vantagem dada a novos governantes de culpabilizar seu antecessor, precisará resistir à tentação de soluções simplistas que provoquem ainda mais despesas aos cofres públicos e que normalmente servem apenas para jogar os problemas para o futuro. A vigilância sobre seus atos será maior agora, com um Congresso virtualmente de oposição e com uma parte considerável da sociedade insatisfeita com as urnas.

Do ponto de vista da divisão social, Lula terá de lidar com demandas historicamente difíceis para ele e seu partido, como a diminuição da idade penal e endurecimento da segurança pública. Com um país formado por governadores em sua maioria conservadores e ligados a partidos de oposição, mudanças na área de segurança devem passar a ser pauta de embates entre o governo e o Congresso, com pouca margem de manobra para debates sobre direitos e proteção social. Se Lula ceder às demandas mais agressivas, poderá perder o apoio político duramente conquistado após o primeiro turno. Se não ceder, se arriscará enfrentar confrontos com setores organizados da sociedade.

Os maiores riscos, entretanto, parecem estar relacionados à preservação das instituições. O próprio resultado eleitoral deve ser alvo de questionamentos diante das diferentes ações atípicas que ocorreram desde o primeiro turno, com denúncias de possíveis influências externas e interferências da Justiça no processo, em especial com a prorrogação do período de votação nesse domingo, já apontada pelo candidato derrotado como ilegal. Isso tudo em um quadro de desconfiança popular crescente sobre o Executivo, Legislativo e Judiciário, que provavelmente também influenciou as decisões dos eleitores. O caso da relação entre ministros do STF e o fraudador Daniel Vorcaro, do Banco Master, por exemplo, é emblemático e deve ficar conhecido como o episódio que representou a maior crise na história da Suprema Corte.

Nesse cenário, será fundamental que Lula se apresente como líder responsável para não inflar ainda mais os ânimos dos eleitores, tanto dos que votaram nele ou contra. O momento pede moderação e união, com um apelo claro à manutenção das instituições e das regras constitucionais, para evitar o risco de aumentar a insatisfação popular e a indisposição entre os Poderes, que pode gerar uma séria insegurança institucional, capaz de afetar decisões empresariais, investimentos, expectativas econômicas e a confiança da população. Será importante deixar clara a opção pelo respeito à Constituição, responsabilidade fiscal, preservação da independência dos Poderes e de relações institucionais que não dependam de afinidades ideológicas.

Prever os rumos de um novo governo é sempre um exercício de cautela. Em uma sociedade que demanda respostas rápidas, de forte impacto e grande visibilidade, como ocorre no universo promovido pelas redes sociais, resta lembrar que esse jamais deveria ser o comportamento de um governo, cuja função principal é proteger os direitos individuais e preservar a independência das instituições, sempre dentro dos limites constitucionais. É nessa capacidade de equilibrar poder, responsabilidade e interesse público que estará um dos principais desafios do governo.

 

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Por Opinião
postado em 27/10/2026 05:00
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