Artigo

Continuo tentando

Meu objetivo era usar o mandato de deputado federal para mostrar que ainda é possível fazer política limpa

Cristovam Buarque em entrevista ao Correio durante a campanha -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Cristovam Buarque em entrevista ao Correio durante a campanha - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Cristovam Buarque - Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

Bom estar de volta a esta coluna, depois de algumas semanas ausente por causa da campanha eleitoral. Em 2018, quando terminei meu segundo mandato de senador, aos 76 anos, professor aposentado pela Universidade de Brasília (UnB), decidi me dedicar integralmente à atividade de escritor. Mas, neste ano de 2026, diante da degradação da política, da corrupção generalizada, do avanço das forças conservadoras, do abandono de programas que implantamos em meu governo e da perplexidade das forças progressistas, decidi disputar um mandato de deputado federal que me permitisse voltar a colaborar com a vida pública do Brasil.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Durante meses, tive o prazer de revisitar cada cidade do DF. Fui recebido com surpresa por alguns, que já me imaginavam definitivamente afastado da política, e com reconhecimento por muitos, que lembravam minha trajetória pública limpa e as realizações como governador, senador e reitor da UnB.

Conversei com mães que educaram os filhos graças ao Bolsa Escola e ao Poupança Escola. Encontrei pessoas que se tornaram profissionais pelo Projeto Saber e milhares que se fizeram empreendedoras graças ao BRB Trabalho, quando este banco era sólido e emprestava com transparência aos pequenos e médios empreendedores. Muitos lembraram do Saúde em Casa, que levava o médico ao quarto do doente, e não havia filas nos hospitais. Outros recordaram a mudança do tempo em que famílias dormiam nas calçadas para conseguir vaga na escola pública para o tempo do Telematrícula.

Encontrei quem aprendeu a ler graças ao Bolsa Alfa e quem descobriu o prazer da leitura com o programa Mala do Livro; quem se tornou empresário graças ao Agroindústrias Familiares. Em Planaltina e Sobradinho, ouvi agradecimentos pela construção da Represa do Pipiripau, que desde 1997 pôs fim à necessidade de racionamento de água durante a estiagem. Muitos na faixa dos 40 anos lembraram da Escola Candanga e da qualidade da merenda escolar daquele período. O que mais ouvi foi o agradecimento pelo orgulho que os brasilienses passaram a ter de sua educação para o trânsito cujo maior símbolo é o respeito à Faixa de Pedestres. 

Também lembraram que foi em meu governo que colocamos o metrô em funcionamento e iniciamos a construção da Ponte JK, cujo desenho, definido naquele tempo, se tornou uma das marcas de Brasília. Reencontrei a menina que me ofereceu o pedaço de vela que não mais precisaria, depois que levamos energia elétrica à região onde ela morava. No Pontão, fui reconhecido pelo êxito do Projeto Orla, que aproximou Brasília do Lago Paranoá e ajudou a transformar áreas antes ocupadas apenas por barro em espaços de lazer, turismo, hotéis e restaurantes. Na Feira dos Importados, os lojistas mais antigos lembraram de quando, em 1997, deixaram de ser ambulantes, com mercadorias espalhadas no chão em frente ao Mané Garrincha, para se tornarem comerciantes em um dos mais movimentados centros de compras do Distrito Federal. 

Por toda parte, senti reconhecimento pela integridade no exercício de cargos. E lembrança de minha campanha para presidente em 2006 com a bandeira da educação. 

Do meu tempo de senador, muitos reconheciam a importância das 21 leis que levam meu nome, entre elas a Lei do Piso Nacional do Magistério e a que garante vaga em escola próxima de casa a partir dos quatro anos até a conclusão do ensino médio. Lembraram também minha luta pela federalização da educação básica, como estratégia para garantir qualidade e equidade independentemente da renda e do endereço de cada criança brasileira.

Os anos entre 2018 e 2026 foram felizes, especialmente estes últimos meses, vividos na desafiante tarefa de convencer os eleitores a me escolherem pelo legado que construí e pelas propostas que ainda defendo para o futuro. Meu objetivo era usar o mandato de deputado federal para mostrar que ainda é possível fazer política limpa; cuidar do Distrito Federal; transformar em leis e reformas da Constituição propostas que defendo há décadas, inclusive aquela que deixei no Senado em 2012 para mudar o sistema de escolha dos ministros do STF; e participar do debate nacional pela construção de forças políticas capazes de adotar uma pauta para o Brasil do século 21, em sintonia com o mundo contemporâneo e com os desejos dos brasileiros.

A eleição não me permitiu levar essa luta para dentro do Congresso, mas quase aos 83 anos eu não me omiti: tentei. Passada a tentativa eleitoral, continuo tentando, graças ao Correio Braziliense, junto a você, meu leitor.

 

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 28/10/2026 05:00
x