Visão do Correio

A derrota ensinou ao PL. Não aos Bolsonaro

As urnas disseram com clareza que a maior parte do povo não aceita radicalismo, balbúrdia, truculência, incivilidade e autoritarismo

Senador insiste em não admitir que perdeu a corrida presidencial  -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Senador insiste em não admitir que perdeu a corrida presidencial - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Flávio Bolsonaro confirmou, na noite de domingo, o ditado que diz que "o fruto não cai longe do pé". Assim como o pai, em 2022, não aceitou a derrota e viu na decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF) — de estender em mais duas horas o horário de votação —, um ato contra sua candidatura. Esqueceu-se, porém, de que seus próprios advogados tinham solicitado a mesma extensão, por conta das chuvas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. E considerou essas duas horas tempo suficiente para que o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva encontrasse os cerca de 4,4 milhões de votos de diferença entre eles.

Se o presidenciável se calou, seu partido, o PL, não. Reconheceu a vitória que deu a reeleição a Lula, em nota divulgada no começo da noite de ontem. A legenda celebra a eleição de um grande número de senadores, deputados e governadores. Mostra que sai do pleito maior do que entrou. Mas não deixa Flávio, ainda um ativo político importante, sozinho. Pede investigações sobre os eventos que ensejaram a ordem de Zanin.

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A insistência do senador em não admitir que perdeu a corrida presidencial tornou-se um fardo poucas horas depois do desbocado pronunciamento sobre o resultado das urnas. Já ali os pragmáticos do PL começaram a agir: a legenda não podia lutar contra o óbvio.

Houvesse alguma dúvida sobre a lisura do pleito, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, não decretaria o resultado da eleição. O peso de quem votou depois das 17h é residual. Segundo o TSE, foram aproximadamente 35 mil votos válidos. Ainda que fossem todos dados a Flávio, não lhe dariam a vitória.

É preciso apurar, agora, as razões pelas quais as prefeituras de São Paulo e de três cidades baianas — Salvador, Lauro de Freitas e Feira de Santana — retiraram os ônibus de circulação e dificultaram o deslocamento do eleitor. Houve casos também em Sergipe, em Alagoas e no Piauí. Esse fato, que levou à prorrogação determinada por Zanin, não é uma preocupação para Flávio ou para o PL. Afinal, diz respeito a aliados do bolsonarismo.

A promessa de tumultos em série para forçar uma remota anulação do segundo turno perdeu força rapidamente. Se, de um lado, o deputado federal eleito Lucas Pavanatto (PL-SP) falou em atos públicos de não aceitação da derrota, Nikolas Ferreira (PL-MG) deixava claro que manifestações são inadequadas e teriam efeito prático nulo. Melhor era tocar a vida em frente, ainda que sob protesto.

O DNA autoritário do bolsonarismo, pela primeira vez, recebe alguma contenção de próprios integrantes. Cenário diferente de 2022, quando, derrotado, Jair Bolsonaro deu início a uma tramoia que não apenas previa manter-se no poder, mas, sobretudo, eliminar autoridades, incluindo Lula, como admitido por um general palaciano processado na trama golpista.

As urnas disseram com clareza que a maior parte do povo não aceita radicalismo, balbúrdia, truculência, incivilidade e autoritarismo. A vantagem de Lula, agora, foi maior do que a de 2022. Isso deveria ser entendido por Flávio e pelo clã Bolsonaro como um sinal de que o ciclo do extremismo pode estar colapsando.

Por sua vez, o PL, ao reconhecer a reeleição do presidente e com alguns dos seus cardeais entrando em campo para propor a virada da página, parece entender que esticar a corda é uma imprudência. E o risco disso é a sobrevivência do partido.

Alguns na extrema-direita aprenderam com a inesperada, mas humilhante, derrota. Já o clã Bolsonarismo parece que não entendeu nada.

 

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Por Opinião
postado em 27/10/2026 05:00
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