
Crianças e adolescentes são as principais vítimas de violência sexual no Brasil. E a barbárie contra eles ocorre, na imensa maioria das vezes, em casa, cometida por um parente ou alguém de confiança — o que torna o crime ainda mais sórdido. Com essa proximidade, não raro, meninas e meninos sofrem em silêncio, porque são ameaçados, manipulados para manter o "segredo", sentem vergonha ou culpa, não têm idade suficiente para entender a agressão ou dependem financeiramente do covarde.
Nesta semana, a polícia prendeu, em Vitória (ES), um homem acusado de estuprar a filha, de 7 anos, duas irmãs dela e uma amiga. A investigação começou quando a garotinha desenhou órgãos genitais masculinos, e a escola fez o alerta. Em depoimento, a criança confirmou os abusos. A irmã dela, de 15, relatou também ser vítima. A outra irmã, agora maior de idade, contou ter sofrido a violência dos 12 aos 14 anos, mas não denunciou porque a família dependia financeiramente do predador sexual.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Em outro caso, em Cariacica (ES), uma adolescente, de 15 anos, revelou à mãe que era abusada sexualmente pelo padrasto desde os 7. Disse ter ficado calada porque o estuprador ameaçava deixar as duas sem sustento.
São muitos os ardis dos molestadores para manter as vítimas em silêncio, mas, mesmo que não consigam pedir socorro diretamente, elas emitem sinais de que estão em profundo sofrimento, e precisamos estar atentos para identificá-los. Entre os indícios estão ansiedade, insônia, depressão, irritação, perda de apetite, dores de cabeça e de barriga, pesadelos frequentes, queda de rendimento escolar, temor de proximidade com determinadas pessoas, comportamentos sexuais.
Ante a suspeita, é preciso apoiar incondicionalmente a vítima para que se sinta segura, jamais duvidar de seus relatos e denunciar os agressores — infelizmente, há famílias que adotam pacto de silêncio quando a perversidade é cometida por algum de seus integrantes, o que revitimiza meninos e meninas. Notificar as autoridades é um dever. Os canais são Disque 100, aplicativo Proteja Brasil, site Humaniza Redes, conselhos tutelares ou polícia.
O enfrentamento à violência sexual passa, também, pelo diálogo, para a prevenção. Uma cartilha do Ministério Público de Minas Gerais enfatiza a necessidade da criação de um ambiente de confiança para crianças e adolescentes e traz orientações a pais ou responsáveis sobre como proceder. O documento instrui a conversar com a criança sobre o corpo dela, ensinando desde cedo os nomes corretos das partes íntimas; explicar que ninguém pode tocar o corpo dela sem permissão, nem em tom de brincadeira; ressaltar que segredos sobre o corpo não devem ser guardados, e que ela sempre pode contar tudo; alertar a não aceitar convites para ir à casa de desconhecidos ou receber presentes sem comunicar aos responsáveis; e enfatizar que ninguém tem o direito de pedir ou tirar fotos do corpo dela, nem mesmo em trocas de jogos ou desafios virtuais.
A falta de conhecimento sobre limites pode deixar meninas e meninos entregues à rotina de agressões sexuais. Por outro lado, se bem informados, saberão quando algo estiver errado e conseguirão pedir socorro mais rápido. Orientar é proteger.
Saiba Mais
Opinião
Opinião
Opinião