Visão do Correio

Um país com a paisagem recortada

A fragmentação avançou por quase 40 anos, atravessou governos de todos os perfis e acumulou-se diante de um poder público que reage por episódios

Cada recorte da vegetação nativa tem consequências concretas  -  (crédito:  AFP)
Cada recorte da vegetação nativa tem consequências concretas - (crédito: AFP)

Vista do alto, a vegetação nativa do Brasil se parece com um mosaico de peças soltas, separadas por pastos, lavouras e cidades. O mapeamento do MapBiomas com dados de 2024 e divulgado ontem mostra a dimensão desse retalhamento. O país contava naquele ano com 3,41 milhões de fragmentos de vegetação nativa, 45% a mais do que em 1986. A área média de cada fragmento encolheu de 287 para 163 hectares, queda de 43% em menos de quatro décadas.

O retrato varia por região, mas nenhuma escapa dele. Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná reúnem juntos 49% de todos os fragmentos, sinal de uma paisagem muito recortada. A Mata Atlântica soma 1,38 milhão de pedaços, e o Cerrado, 957 mil. Em 46% dos municípios brasileiros, o fragmento médio tem menos de 25 hectares. A Amazônia, que ainda guarda as maiores áreas contínuas, viu o número de fragmentos crescer 260% desde 1986, de 144 mil para 519 mil, com redução de 76% na área média de cada um.

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Cada recorte tem consequências concretas. Animais e plantas perdem espaço para circular e se reproduzir, as populações trocam menos material genético, e a vegetação remanescente fica mais exposta ao fogo e aos efeitos de borda. O levantamento estima que entre 10% e 24% da vegetação nativa do país estava sujeita a algum fator de degradação em 2024. Na Mata Atlântica, o bioma mais pressionado em termos proporcionais, a faixa vai de 33% a 70%. Em área absoluta, o Cerrado lidera, com entre 17,7 milhões e 42,1 milhões de hectares expostos.

O Brasil tem legislação ambiental, áreas protegidas, órgãos de fiscalização e compromissos assumidos em fóruns internacionais. Os números mostram que esse conjunto de iniciativas tal como funciona hoje fica aquém do necessário. A fragmentação avançou por quase 40 anos, atravessou governos de todos os perfis e acumulou-se diante de um poder público que reage por episódios, quando uma queimada cobre uma capital ou uma enchente atinge uma cidade, e retoma a rotina quando a imagem some do noticiário. Faltam metas de restauração com prazo, recursos estáveis para fiscalização e uma política de reconexão entre áreas nativas que trate o território como um sistema.

A reversão depende de ação em todas as esferas. Governos federal, estaduais e municipais precisam transformar os dados em planos de restauração com metas verificáveis, prazos definidos e orçamento garantido, dando prioridade a corredores ecológicos que religuem os fragmentos da Mata Atlântica e do Cerrado, onde a divisão é mais intensa. Os números por município oferecem um ponto de partida concreto para as prefeituras, que podem incorporar a conectividade da vegetação aos planos diretores e à gestão do uso do solo. Produtores rurais e empresas ocupam boa parte do território em que a recomposição precisa acontecer, e a regularização ambiental das propriedades e a rastreabilidade das cadeias produtivas são instrumentos que já existem e aguardam adesão em escala.

A tarefa se estende a toda a sociedade. Consumidores podem preferir produtos com origem comprovada, eleitores podem cobrar de seus representantes compromissos com prazo, escolas e universidades podem levar o tema ao centro da formação, mesmo nos meses em que não há fumaça sobre as cidades. Uma floresta replantada leva décadas para cumprir sua função, e cada ano de espera encarece a restauração e reduz as chances de sucesso. O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta e tem diante de si uma década para mostrar que sabe cuidar dela. Preservar o que resta e reconectar o que foi separado é um esforço que cabe a todos, e quanto antes ele começar, maior será o que poderemos recuperar.

 

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Por Opinião
postado em 30/10/2026 05:00
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