
Max Maciel — pedagogo e deputado distrital reeleito pelo PSol
É tempo de debatermos a cidade que queremos e de garantirmos recursos para viabilizá-la. A Câmara Legislativa está para votar o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), podemos definir como o dinheiro público será investido. Dentre tantas pautas importantes para o DF, como saúde, educação e mobilidade, existe uma questão ainda ausente do debate público: o racismo ambiental.
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Enquanto esse tema permanecer invisível, continuaremos discutindo apenas os efeitos da desigualdade, sem enfrentar suas causas. Muita gente acredita que racismo ambiental diz respeito apenas à natureza ao redor, mas não é. Na verdade, é compreender quem convive diariamente com enchentes, calor extremo, falta de árvores, esgoto a céu aberto, rios contaminados e infraestrutura precária. E, principalmente, entender por que isso acontece sempre nos mesmos lugares.
No Brasil, e em especial no DF, a desigualdade tem endereço. Basta comparar o Plano Piloto com a maioria das regiões administrativas. Durante as chuvas, as cidades periféricas param. Durante a seca, o calor se torna quase insuportável. As mudanças climáticas atingem todos nós, mas seus impactos são muito mais severos para quem vive onde o poder público historicamente investiu menos.
Brasília foi construída sobre um projeto urbano profundamente desigual. Enquanto servidores públicos, militares, arquitetos e engenheiros recebiam moradias estruturadas no centro da nova capital, milhares de trabalhadores que ergueram a cidade foram empurrados para ocupações distantes, sem infraestrutura e, posteriormente, removidos para regiões cada vez mais afastadas. Essa segregação territorial permanece até hoje.
As periferias foram planejadas para garantir teto, mas não qualidade de vida. Como se os direitos terminassem na porta de casa. Precisamos de uma cidade que ofereça sombra, parques urbanos, áreas de convivência e espaços públicos onde crianças podem brincar, famílias podem se encontrar e a população pode usufruir do direito à cidade.
A maioria das regiões administrativas possui plano urbanístico. No entanto, o Plano Piloto e os lagos Sul e Norte concentram grande parte da arborização e recebem, com mais frequência, novas mudas de árvores. Já as periferias convivem com menos áreas verdes, mais calor e maior vulnerabilidade às mudanças climáticas.
Essa desigualdade também se revela na forma como cuidamos do Rio Melchior e do Lago Paranoá. Mesmo sendo importante para o abastecimento de água de grande parte da população, o Melchior, que passa pela Ceilândia e Samambaia, continua recebendo esgoto, resíduos e sofrendo processo de degradação. Já o Lago Paranoá, cercado por grandes mansões, recebe investimentos para manter suas águas apropriadas a banhistas, turistas e usuários de embarcações.
Afirmar que existe racismo ambiental não é dizer que a chuva escolhe onde cair. Mas lembrar que o poder público escolhe, há décadas, onde investir — onde plantar árvores, construir parques, ampliar a drenagem, levar saneamento, recuperar córregos e regularizar bairros. Também escolhe quais territórios podem continuar esperando.
Nossas casas alagam, ruas se transformam em rios e cidades se tornam verdadeiras ilhas de calor porque o planejamento urbano nunca preparou as periferias para enfrentar esses desafios. Garantiram moradia, mas não construíram cidades sustentáveis, humanas e resilientes. Retiraram áreas verdes para dar lugar ao concreto, impermeabilizaram o solo sem investir em drenagem e deixaram a periferia mais vulnerável aos efeitos da crise climática.
No DF, o CEP ainda determina a velocidade com que o Estado chega. Por isso, o racismo ambiental precisa entrar no debate orçamentário. Ainda dá tempo de mudar essa história, mas, para isso, precisamos pensar o desenvolvimento do Distrito Federal a partir das periferias, ouvindo quem mais sente os efeitos da desigualdade territorial e da crise climática, e não apenas a partir da realidade do centro.
É urgente que os deputados e deputadas distritais assumam o compromisso de construir um orçamento que enfrente as desigualdades socioambientais do Distrito Federal. Ignorar o racismo ambiental significa continuar destinando recursos de forma desigual e aceitar que algumas regiões sigam acumulando riscos, enquanto outras concentram investimentos, infraestrutura e qualidade de vida.
Não existe justiça climática sem justiça territorial. E não existe democracia plena enquanto o lugar onde uma pessoa mora continuar determinando o tamanho da proteção que ela recebe do Estado.
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