Flavia Soares — jornalista e psicanalista, especialista em educação não violenta e educadora parental
Eu defendo a família. E você, provavelmente, também. Nunca conheci alguém que dissesse o contrário. Mas o que, de fato, significa defender a família?
Na política, essa expressão se tornou um slogan recorrente e poderoso. O problema é que, justamente por ser tão genérica, pode significar quase tudo e, muitas vezes, esconder contradições entre discurso e prática. Afinal, falar em família é fácil. Difícil é criar condições para que ela exista com dignidade, segurança, tempo de convivência, proteção e acesso a direitos.
Não se defende a família quando o trabalho impõe jornadas exaustivas que inviabilizam a convivência entre pais e filhos. Não se defende a família quando a violência contra mulheres e crianças é naturalizada ou quando políticas públicas mantêm mulheres economicamente dependentes, sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado e afastadas dos espaços de decisão.
Defender a família, portanto, não deveria ser apenas um discurso eleitoral. Deveria ser um compromisso político que pudesse ser observado e avaliado a partir de propostas concretas. Mais do que perguntar quem diz defender a família, precisamos perguntar: que família esse político pretende proteger e de que maneira?
Uma sociedade que realmente coloca as famílias no centro precisa discutir trabalho, renda, educação, saúde, segurança e cuidado. Precisa criar condições para que mulheres possam trabalhar, desenvolver suas carreiras e ocupar espaços de liderança sem que isso signifique abandonar ou terceirizar integralmente o cuidado com os filhos. Isso passa por creches de qualidade, educação infantil, políticas de cuidado, qualificação profissional e uma divisão mais equilibrada das responsabilidades domésticas e parentais.
Também é preciso reconhecer que cuidar de crianças não é uma responsabilidade exclusivamente privada. Quando faltam creches, escolas estruturadas, serviços de saúde e redes de proteção, o peso recai sobre as famílias e, dentro delas, frequentemente sobre as mulheres. Políticas de cuidado não são um detalhe ou um benefício secundário: são parte da infraestrutura necessária para que as famílias possam viver, trabalhar e se desenvolver.
Proteger a família também significa prevenir a violência. Isso inclui enfrentar a violência doméstica e sexual, responsabilizar agressores e impedir que vítimas, em sua maioria mulheres e crianças, sejam culpabilizadas pelo que sofreram. Uma política que ignora a violência ou relativiza seus impactos não oferece proteção efetiva às famílias.
A educação deveria estar no centro das propostas de qualquer candidato que afirme defender a família. Mas não basta repetir: “vamos investir em educação”. A pergunta precisa ser mais específica: investir como, onde, de que forma?
Quem cuida das crianças enquanto os pais trabalham? Há creches e escolas suficientes e de qualidade? Como os profissionais são preparados para lidar com conflitos, violência, sofrimento emocional e diferentes etapas do desenvolvimento infantil? Quanto o poder público investe na formação, nas condições de trabalho e na valorização dos educadores?
Essas perguntas importam porque a escola também faz parte da rede de proteção das crianças e das famílias. Quando ela funciona bem, não apenas transmite conhecimento, mas contribui para o desenvolvimento, amplia oportunidades e pode identificar situações de violência, negligência e sofrimento que muitas vezes permanecem invisíveis.
No fim, o que precisamos entender é que todos queremos famílias que vivam com mais qualidade, mas, quando um candidato diz que defende a família, quem exatamente está sendo protegido pelas escolhas políticas dele?
Porque defender a família não é defender uma palavra. É defender as pessoas que estão dentro dela. É garantir que crianças possam crescer com segurança, que mulheres tenham autonomia, que pais tenham condições de conviver com seus filhos e que o cuidado não seja tratado como um problema exclusivamente individual.
Famílias não precisam apenas de discursos em sua defesa. Precisam de adultos, instituições e governos dispostos a criar condições concretas para que possam cuidar, conviver e se desenvolver com dignidade. As políticas públicas precisam considerar as famílias em sua realidade concreta, com suas necessidades e desafios, e não apenas como uma imagem idealizada utilizada em discursos. Todos defendemos a família, e o que queremos, de fato, são políticas que de fato as defendam na prática.
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