Artigo

E a água vai esquentando

Será que Pietra Bertolazzi e outras mulheres que lutam pelo fim dos direitos das mulheres não estão esquentando a água da banheira em que todas nós estamos?

Cena da série The Handmaid's Tale -  (crédito: Paramount+)
Cena da série The Handmaid's Tale - (crédito: Paramount+)

"Just because you have rights today does not mean you will have rights tomorrow", em tradução livre, significa que não é porque você tem direitos hoje que necessariamente os terá amanhã. A frase foi dita por Sheryl Lee Ralph, atriz norte-americana, em um discurso durante o jantar anual da Human Rights Campaign (HRC), quando recebeu o prêmio Aliada pela Igualdade.

Seu objetivo ao dizer isso? Alertar o público que as conquistas sociais e civis nunca estão permanentemente garantidas. Ela não poderia estar mais correta. Quando pensamos na possibilidade de perdermos direitos, pensamos: existem leis que nos protegem. Mas quem protege as leis? Precisamos não só lutar pelos direitos que ainda não temos, mas também lutar para manter aqueles que já conquistamos.

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Há um tempo, fiz uma leitura que me deu uma noção muito mais real dessa necessidade. O Conto de Aia, de Margaret Atwood, conta a história de Offred, uma mulher que vive em Gilead, uma sociedade teocrática e autoritária criada após a derrubada do governo dos EUA. Nesse regime, as mulheres perdem direitos, autonomia e acesso à educação, e aquelas consideradas férteis são obrigadas a servir como "aias" para gerar filhos para famílias da elite.

Em certo ponto, a protagonista afirma que a derrubada do governo e a instauração do regime teocrático não aconteceram de uma hora para outra. E esse processo dificultava a percepção sobre a dimensão do problema que estava por vir. "Em uma banheira em que a água se aquece gradualmente, você seria fervida até a morte antes de se dar conta", declara a escritora, para exemplificar como mudanças aparentemente pequenas podem se tornar fatais se demorarmos demais para reagir. 

Ao questionar amigas próximas se já haviam lido o livro ou visto à série inspirada na obra, uma delas disse: "Assisti até a segunda temporada, mas tive que parar. Estava ficando muito parecido com a realidade, e eu estava ficando apavorada". Não pude deixar de concordar com ela.

Logo no início do livro, ao conhecer Serena Joy, imediatamente fiz o paralelo entre ela e Pietra Bertolazzi. Serena é esposa de um dos comandantes de Gilead. No regime, Offred é obrigada a manter relações sexuais com seu comandante para gerar um filho para ele e Serena. Antes da instauração da República de Gilead, Serena era uma ativista e palestrante conhecida por defender ideias ultraconservadoras e o chamado "feminismo doméstico". 

Pietra, por sua vez, é uma influenciadora real com mais de um milhão de seguidores no Instagram. Em suas redes, assim como Serena, defende pautas ultraconservadoras, como a oposição ao feminismo, o fim da igualdade de gênero e o fim do voto feminino. Já afirmou publicamente ser contra as conquistas históricas do feminismo, declarando que o movimento teria sido criado por "mulheres feias" com o objetivo de deteriorar a estética feminina. 

Na ficção, a atuação de Serena ajudou a difundir a ideologia que sustentou a criação do regime e a retirada dos direitos das mulheres. Paradoxalmente, o sistema que ajudou a construir também restringe a própria autonomia: Serena perde o direito de exercer uma profissão, de participar da vida pública e de ter voz política, o que a leva a se tornar uma pessoa amargurada e rancorosa.

E isso me leva a pensar: será que Pietra Bertolazzi e outras mulheres que lutam pelo fim dos direitos das mulheres não estão esquentando a água da banheira em que todas nós estamos, inclusive elas? O que falta nelas? Discernimento ou caráter?

 

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postado em 30/09/2026 05:00
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