O país acorda nesta segunda-feira com uma vertigem pós-eventos importante. Popularmente conhecida como ressaca, a ressaca das eleições. Como era projetado por diversas pesquisas, o pleito presidencial de 2026 — que escolherá o 10º presidente da República no pós-democratização — segue para o segundo turno com os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) daqui a exatos 20 dias.
Quando parei para pensar neste texto — em um dia em que outros assuntos seriam ofuscados —, muitas ideias surgiram. Desde a análise sobre a força católica em um pleito até a retórica sobre fake news que permearam a primeira fase das eleições deste ano, muito poderia ter sido dito sobre as campanhas e sobre os sentimentos envolvidos nesta segunda-feira. Inusitadamente, só consegui pensar em história.
Uma das minhas primeiras memórias que envolvem política não está relacionada à militância, nem à sala de aula, menos ainda à identificação partidária. Está ligada à preparação, à comemoração (ou decepção) e à ressaca.
Como estudante de escola pública ao longo dos pleitos dos anos 1990 e 2000, lembro de viver a preparação das eleições de uma forma um tanto quanto sui generis. As aulas eram reduzidas nas sextas-feiras pré-primeiro domingo de outubro. Era necessário tempo para organizar as salas.
Aquela infinidade de crianças poderia atrapalhar. Mas já ao longo da semana, a movimentação na escola mudava. Caixas empilhadas no pátio, uma movimentação mais concentrada, papéis com números de seções em determinados corredores. Tudo apontava para as eleições.
Depois de visitar as urnas com os familiares, a noite de domingo era dedicada à comemoração (ou decepção). Minha família não foi uma das mais politizadas da história. Não lembro de nenhum parente panfletando voluntariamente, nem participando de carreatas para apoiar determinado candidato. A comemoração depois da contagem dos votos, todavia, era sagrada.
Sair em buzinaço pela praça da Vila Planalto, na frente do Armazém do Seu Geraldo, era um clássico. Lanchar com os primos um cachorro-quente com um copo de refrigerante (por R$ 1), enquanto uma pequena multidão gritava o nome do vitorioso seguido de "campeão". Lembro que raras vezes chovia no Distrito Federal no começo de outubro. Caso o candidato de preferência perdesse, o clima era ficar em casa mesmo, deitar mais cedo.
Na segunda-feira, era a vez da ressaca. Voltar para a escola e notar alguns papeizinhos no chão. Até um ou outro comprovante de votação esquecido em um canto da sala com os dados de algum desconhecido. As salas ainda estavam com as cadeiras desorganizadas.
A proposta deste artigo, nesta segunda-feira pós-eleições, é relativamente simples: lembre-se das suas primeiras eleições. Não as que você votou, mas, sim, as primeiras memórias, o primeiro contato. Tenho a teoria de que aquela inocência transformava os pleitos em processos menos desgastantes. Diante de mais semanas de embates intensos até o segundo turno, preservar a memória do que nos unia na infância pode ser o melhor remédio contra a ressaca da política.
