Deborah Dubner — psicóloga e escritora, palestrante TEDx, especialista em neurociência e psicologia positiva
Ter saúde mental significa estar sempre bem, não ter problemas, não ficar triste, não ter conflitos? Essa temática tem sido especialmente discutida nos campos da medicina e da psicologia. Nas últimas décadas, estudos da neurociência e da psicologia positiva ampliaram nossa compreensão sobre o bem-estar e os fatores que contribuem para o florescimento humano. Ter relacionamentos positivos, uma vida engajada e com sentido, ser capaz de realizar coisas significativas e sentir emoções positivas com frequência contribuem para o bem-estar e ajudam a lidar com os desafios da vida.
Mas cultivar bem-estar não significa estar sempre bem. A exigência de felicidade permanente, frequentemente associada à chamada “positividade tóxica”, distorce essa compreensão ao desconsiderar a importância e a legitimidade das emoções desagradáveis na experiência humana. A presença cada vez maior das redes sociais no cotidiano, com suas imagens de pessoas felizes e vidas perfeitas, tem contribuído ainda mais para esse mal-entendido.
Neste 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama a atenção para a importância de escutar e valorizar as experiências de quem vive questões de saúde mental. É um convite para ampliar nosso olhar, reconhecendo que cada pessoa tem sua história, suas dores e sua maneira de viver e compreender a vida.
A psicóloga e cientista americana Barbara Fredrickson, que estuda as emoções positivas há décadas, explica que emoções são como mudanças climáticas: vêm e vão rapidamente. Do ponto de vista biológico, elas não são feitas para durar. Assim, ao longo de um único dia, podemos passar por várias nuances de emoções: tristeza, alegria, medo, gratidão, raiva, frustração, tranquilidade, amor, entre outras.
Algumas emoções são agradáveis de sentir, outras não. Mas isso não quer dizer que não sejam necessárias. Existe uma diferença entre acolher emoções difíceis e ser dominado por elas.
Cuidar da saúde mental envolve, entre outras dimensões, desenvolver recursos para reconhecer e acolher emoções, aprender a regulá-las e cultivar experiências positivas, sem exigir de nós mesmos um estado permanente de felicidade. Aprender sobre isso é um processo que exige tempo e autoconhecimento. Mas não podemos esquecer que a saúde mental também é construída nas relações e nos ambientes em que vivemos. Ter com quem contar, sentir-se acolhido, estabelecer vínculos de confiança e encontrar apoio nos momentos difíceis faz grande diferença.
Assim, a psicologia positiva oferece um olhar e estratégias para fortalecer e expandir o que funciona, sem negar a dor. Pelo contrário, ajuda a desenvolver recursos internos para lidar com as adversidades da vida. Querer estar sempre bem acaba se distanciando bastante do real significado do bem-estar.
Num tempo cada vez mais acelerado, com vitrines sedutoras e promessas improváveis, cuidar da saúde mental pode se tornar o grande diferencial. Aprender a discernir entre o autêntico e o performático, acolher emoções e escolher quais cultivar pode parecer pouco, mas é capaz de alterar significativamente a forma de viver.
Ter saúde mental é não perder o fio de conexão com a vida que pulsa, dentro e fora de nós.
Saiba Mais
