Visão do Correio

Voto consciente precisa do debate de ideias

Quando a escolha política se baseia em derrotar o menos pior e não em depositar a confiança em um projeto político que faça sentido, perdem o eleitor, o Brasil e, sobretudo, a democracia

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Cento e vinte e cinco milhões de brasileiros não abriram mão neste domingo de usar, por direito, o principal instrumento de participação na vida pública: o voto. Para além dos resultados das urnas, há de se celebrar que elas funcionaram. Sem grandes intercorrências e "na maior transparência possível", nas palavras do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, o Brasil, mais uma vez, prova que tem um dos sistemas eleitorais mais íntegros e ágeis do mundo.

Missões estrangeiras que acompanharam o processo, a do Parlasul e a de Observação Eleitoral da OEA (Organização dos Estados Americanos), chegaram à mesma conclusão. "O sistema de votação já tem cerca de 30 anos e cada vez está melhor, cada vez mais aperfeiçoado", resumiu o chefe da missão da OEA, José Miguel Insulza, também ex-chanceler do Chile. Ambas as comitivas não desembarcaram em Brasília para acompanhar as eleições pela primeira vez, e não há em relatórios anteriores conclusões diferentes das impressões compartilhadas neste domingo. 

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Também ontem, críticos tradicionais ao sistema de votação conquistaram vitórias expressivas e a abstenção chegou ao maior patamar dos últimos 30 anos em um primeiro turno: 21,08%. Passou, portanto, da hora de abandonar os disparates ideológicos e trazer o cidadão à arena do processo da decisão democrática —  a razão de ser da democracia participativa e da soberania popular. Que seja agora, na disputa em segundo turno pela Presidência e pelo governo de sete unidades da Federação.

Não é exagero afirmar que o desânimo e a descrença que atingem uma parcela considerável do eleitorado brasileiro tem na falta de proposituras uma de suas raízes. Quando a escolha política se baseia em derrotar o menos pior e não em depositar a confiança em um projeto político que faça sentido, perdem o eleitor, o Brasil e, sobretudo, a democracia. Não à toa são cada vez mais desinibidas as defesas pelo fim do voto obrigatório e do voto feminino.

O eleitor quer propostas e também respostas à sucessão de grandes escândalos envolvendo cifras bilionárias e grandes figuras da República. Quer voltar a acreditar que quem exerce os Poderes respeita os limites das leis e atua de forma independente e harmônica, como prevê a nossa Carta Magna. Precisa, portanto, que a mediocridade que tomou conta das campanhas, em especial nas redes sociais, seja substituída por um debate de propostas à altura da grandiosidade deste país. E mais: que quem chega ou se mantém no Legislativo e no Executivo esteja, de fato, comprometido em representar os votos recebidos e também dos adversários. 

O descrédito na política não se expressa apenas no cansaço com as campanhas e no não comparecimento às urnas, gera apatia cívica, não acompanhamento de decisões públicas, inflama a intolerância — é, em suma, salvo-conduto aos mal-intencionados e uma ameaça cáustica à democracia. O voto consciente é antídoto para esses descaminhos. E ele depende do debate de ideias e da seriedade de quem tem a obrigação de apresentá-las.

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Por Opinião
postado em 06/10/2026 05:00
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