Larissa Marques, Lucio Rennó e Frederico Bertholini — pesquisadores do Observatório de Políticas Públicas do DF (ObservaDF)
Em anos eleitorais, a compra de votos reaparece na democracia brasileira como uma dinâmica enraizada na troca cotidiana de favores entre eleitores e representações políticas. Longe de ser um resquício autoritário em extinção, a literatura especializada descreve essa negociação como uma estratégia resiliente e capaz de se adaptar aos contextos democráticos. A legislação do país combate a prática em duas frentes: o Código Eleitoral fixa pena de até quatro anos de reclusão e multa para quem dá, oferece, promete, solicita ou recebe vantagens materiais por voto, enquanto a Lei das Eleições prevê a cassação do registro ou do diploma do candidato infrator.
Para mensurar essa realidade no Distrito Federal, o Observatório de Políticas Públicas do DF (ObservaDF) realizou uma pesquisa inédita. Buscando contornar o viés de desejabilidade social — a tendência do entrevistado de omitir ou minimizar condutas ilícitas ou socialmente vistas como indesejáveis para se proteger —, o estudo adotou estratégias de confidencialidade. Em vez de utilizar termos estigmatizantes, o questionário investigou episódios concretos vivenciados desde 2018 e colheu a percepção dos cidadãos sobre o comportamento da vizinhança, da cidade e do ambiente de trabalho e não apenas de uma experiência direta com atividades vistas como ilícitas e politicamente incorretas.
Os resultados revelam um contraste marcante entre a vivência individual e a percepção sobre a conduta dos outros. No âmbito pessoal, a maioria expressiva de 92% declara nunca ter recebido ofertas de dinheiro, cestas básicas, remédios, material de construção ou empregos em troca de voto. Apenas 8% admitem ter passado por essa situação, sendo 6% de forma ocasional e 2% frequente. Entre os que receberam propostas materiais, 45% afirmam que o aceno não alterou sua escolha, 33% relatam que a investida diminuiu as chances de votar no candidato ofertante e apenas 22% dizem que a vantagem aumentou a probabilidade de apoio. Assim, na experiência direta, a compra de votos se mostra um evento raro e de baixíssimo retorno eleitoral.
O cenário muda significativamente quando o foco se desloca para a coletividade. Ao avaliar a própria vizinhança, 17% dos entrevistados afirmam saber de candidatos ou partidos que ofereceram bens no bairro onde moram — número que representa mais do que o dobro do relato pessoal. Quando a pergunta abrange a população da cidade em geral, os índices sobem para 47% dos que acreditam que os eleitores aceitam vantagens materiais sempre ou às vezes. Ademais, 59% avaliam que a oferta de bens realmente funciona para aumentar as chances de eleição de um candidato.
Além da troca de favores nas ruas, o levantamento do ObservaDF lançou luz sobre o assédio eleitoral no ambiente de trabalho, caracterizado pelo uso do poder hierárquico de chefes e empregadores para direcionar o voto de subordinados. No espaço profissional, 88% dos trabalhadores dizem nunca ter sido abordados com ofertas ou pedidos formais, mas 12% relatam ter vivido a experiência. O grau de coerção nesse grupo é expressivo: 38% dos abordados sentiram-se obrigados, ameaçados, forçados ou constrangidos a votar no nome indicado e 20% acabaram por seguir a orientação do superior na urna.
Da mesma forma que ocorre na compra de votos tradicional, a percepção do assédio eleitoral cresce quando projetada no coletivo. Entre os entrevistados, 37% avaliam que patrões pedem votos a empregados em seu meio profissional, marca mais de três vezes superior à da abordagem direta sofrida. Por fim, 14% dos trabalhadores afirmam conhecer alguém que foi demitido devido a sua escolha de voto ou posição política, evidenciando como a polarização ideológica passou a afetar a convivência e as relações formais de trabalho com consequências materiais concretas.
Assim, a compra de voto e o assédio eleitoral no local de trabalho são vistos com atividades frequentes no DF e, inclusive, parcela relevante admite tê-la enfrentando pessoalmente. Fiscalização dessas duas práticas ilícitas se fazem absolutamente necessárias para a integridade das eleições no DF.
Saiba Mais
