
Beth Cataldo — jornalista
Ele percorreu o apartamento funcional que lhe cabe como senador da República com um celular na mão, cômodo por cômodo, para criticar o que classifica como benesse com o dinheiro do povo. Roupas espalhadas e camas desarrumadas formavam o cenário de fundo do seu discurso, no tom agudo e acelerado que costuma empregar em suas aparições.
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Ao iniciar a campanha eleitoral, mostrou o local da própria casa que iria utilizar como estúdio dos programas televisivos e aproveitou para ir até os fundos do imóvel para afagar os dois cachorros da família. Em outra ocasião, já havia aberto as gavetas onde guarda as milhares de camisas de futebol que coleciona. Entre elas, a do América Mineiro, que considera a mais bonita.
O governador eleito de Minas Gerais, o atual senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, consagrou esse estilo dos realities shows em suas aparições nas redes sociais. Em busca de impacto, costuma desnudar ambientes restritos para acentuar o inconformismo com privilégios no exercício do poder. Sua postura caiu no gosto do público, a ponto de ser eleito no primeiro turno das eleições deste ano com 55,40% dos votos válidos.
É nas redes sociais que ele construiu o caminho para conquistar o governo mineiro, brandindo como principal bandeira de campanha a redução do IPVA para os veículos no estado e a promessa de que não haverá mais apreensão dos carros que estiverem em atraso com o imposto e a taxa de licenciamento. "Isso vai acabar em Minas", prometeu, mais de uma vez.
Em plena campanha, deixou-se filmar no meio de rodovias, com carros e caminhões passando de cada lado, para divulgar seu material de campanha. Apertos de mão calorosos, acenos, o número de campanha falado aos gritos, tudo se transformou em conteúdo para as redes sociais que o consolidaram como um prodígio de popularidade. De boné, camiseta e calça jeans, seu figurino predileto, chegou a celebrar os motoristas que driblavam os pedágios nas rodovias.
A narrativa populista que entabulou para vender sua candidatura encontrou eco entre eleitores às voltas com uma carga exigente de tributação ou um cotidiano penoso para ganhar a vida. A exposição do que se passa por trás das cortinas no ambiente do poder foi uma das principais armas que usou para convencer o público de que ali estava um igual, que vai cuidar de melhorar a vida de todos.
O que mais importou, no caso dele, foi a estética e a retórica de gente como a gente, que cultivou de forma cuidadosa desde que ascendeu ao primeiro plano da carreira política. O verdureiro que trabalhava todos os dias, como ele faz questão de lembrar, apoia a proposta do fim da escala 6X1, critica a semana exígua de trabalho dos parlamentares brasileiros e a sucessão de penduricalhos que acompanha o generoso salário que recebem.
Com seu sotaque interiorano, exibiu-se na cadeira de presidente do Senado para defender o corte de privilégios nos Três Poderes da República. As mãos espalmadas e o bordão de que as tem limpas compõem esse personagem destinado a marcar a história política brasileira como um fenômeno midiático, capaz de desafiar lideranças tradicionais ao construir um caminho inusitado para chegar ao poder.
Um esforço de reflexão poderia enquadrá-lo como um produto da classe C, a porção da população brasileira que o pesquisador e publicitário Renato Meirelles classifica como majoritária no país. Em seu livro O Brasil da maioria, o autor aponta a estagnação econômica desse segmento como uma das fontes de insatisfação política na sociedade brasileira, depois de um ciclo de mobilidade social registrado no período de 2003 a 2013.
O sonho interrompido de uma classe média emergente, como aponta Meirelles, e que tem como marco as manifestações políticas do ano de 2013, ajuda a explicar a ascensão de Cleitinho, que consegue vocalizar o sentimento de frustração identificado nessa parcela da população. As respostas simplistas que o governador eleito, e alinhado ao bolsonarismo, fornece para problemas complexos terão o teste da realidade a partir de janeiro do próximo ano.
O seu desempenho nos quatro anos de mandato que o esperam no governo de Minas será, em qualquer hipótese, um acontecimento na esfera da comunicação política. Ele já prometeu que andará com a câmera do celular ligada em todos os momentos e que mostrará tudo aos seus eleitores — ou melhor, seguidores, como parece mais adequado nos novos e imperativos tempos das redes sociais.
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