Haroldo Rocha — diretor-geral do Movimento Profissão Docente; Camila Naufel — diretora de gestão institucional e políticas docentes do Movimento Profissão Docente
Pergunte a qualquer brasileiro o que faz uma escola ser boa, e a resposta, quase sempre, virá acompanhada de uma palavra: professor.
É o que mostra a mais recente pesquisa encomendada ao Instituto Ideia pelo Todos Pela Educação e outras cinco organizações. Ao serem convidados a descrever, espontaneamente, o que é uma escola de qualidade, os entrevistados citaram, em segundo lugar (logo após respostas genéricas como "bom ensino"), professores bem preparados, comprometidos e motivados. O mesmo levantamento, entretanto, expõe um contraste incômodo: para 56% dos brasileiros, professores não são valorizados pela sociedade.
A percepção encontra respaldo no diagnóstico dos próprios professores. Dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que apenas 44,3% dos docentes brasileiros dos anos finais do ensino fundamental estão satisfeitos com suas condições de trabalho. Entre 38 países e economias analisados, o Brasil ocupa a 36ª posição. Na média internacional, a proporção chega a 68,4%.
Esse paradoxo de reconhecer a importância dos docentes sem de fato valorizá-los também apareceu no debate educacional das eleições deste ano. Entre as prioridades colocadas em discussão, apareceram questões como recomposição de aprendizagens, alfabetização na idade certa, ampliação do tempo integral, expansão do ensino técnico e incorporação da tecnologia à sala de aula. São agendas legítimas e necessárias. Para que avancem, entretanto, precisam caminhar junto com políticas docentes consistentes para quem vai implementar essas mudanças dentro da sala de aula.
Um estudo de 2024 do Instituto Península e da Fundação Getulio Vargas mostra que não há nada dentro da escola (seja infraestrutura, seja material didático ou seja gestão) com impacto semelhante ao que o professor tem sobre a aprendizagem. Priorizar políticas docentes, portanto, é investir na variável escolar de maior impacto.
A população parece perceber isso. Na já mencionada pesquisa do Todos Pela Educação, que ouviu 20 mil pessoas, a resposta mais repetida nas cinco regiões do país — 53% das vezes — sobre as prioridades da educação para os próximos anos foi "melhorar salários e condições de trabalho dos professores". "Formação docente" aparece em quarto lugar, com 37%.
Vale olhar, brevemente, como a agenda docente se conecta a algumas das prioridades educacionais que estiveram presentes no debate eleitoral.
Tome-se a alfabetização na idade certa, uma das prioridades presentes no debate educacional. A qualidade da formação inicial de quem alfabetiza é parte central dessa agenda, exigindo integração entre teoria e prática e inserção em escolas reais, experiências formativas que dificilmente são plenamente reproduzidas a distância. Sem a qualificação da formação das licenciaturas em pedagogia, o país não conseguirá dar sequência à melhoria da alfabetização das crianças.
A mesma conexão aparece no ensino em tempo integral. Expandir o modelo exige a criação de jornadas de 40h e alocação de professores em apenas uma escola, enquanto o Brasil está prestes a viver uma onda inédita de aposentadorias. Um estudo do Movimento Profissão Docente projeta que 57,5% do efetivo das redes estaduais poderá se aposentar até 2034, o que torna o planejamento da reposição do quadro docente uma questão imediata e uma grande oportunidade.
Por fim, a incorporação da tecnologia à sala de aula se enquadra num contexto semelhante: boa parte de seu potencial depende de o professor ter, ao longo da carreira, oportunidades concretas para desenvolver conhecimentos e práticas relacionados ao uso da tecnologia. Um diagnóstico do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social da FEA-RP/USP (Lepes-USP), em parceria com o Movimento Profissão Docente e a Fundação Lemann, avaliou as condições institucionais da formação continuada em 17 estados e no Distrito Federal e não encontrou um único caso considerado "adequado" ou mesmo "exemplar". Apenas duas das 18 redes avaliadas sabem dizer se as formações que oferecem realmente mudam a prática docente.
São três exemplos, que não esgotam a lista, mas mostram como a agenda docente se conecta a outras das maiores prioridades para a educação brasileira hoje. Seja na alfabetização, seja no tempo integral, seja no investimento em tecnologia, priorizar formação, carreira e condições de trabalho dos professores ajuda a criar as condições para que políticas se convertam em práticas pedagógicas eficazes.
Seja qual for a agenda dos próximos governos, os professores estarão na linha de frente de sua implementação. Colocá-los também no centro do planejamento educacional é condição indispensável para transformar a educação brasileira.
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