Opinião

Obrigada, Lula!

Aos 81 anos, Lula teve coragem de continuar defendendo a democracia e disputou sua sétima eleição presidencial

Quem foi criança durante a ditadura militar há de se lembrar de uma disciplina inútil e ufanista chamada de Educação Moral e Cívica (EMC). Envergonhados, os professores nos colocavam para copiar mapas do Brasil, decorar hinos, pintar bandeiras. Nos livros, víamos os desenhos e fotos dos presidentes do país: ora militares, ora representantes da elite sudestina, até que, de 1964 para frente, só homens fardados, sisudos, portando no peito a faixa usurpada da democracia. 

A primeira eleição presidencial após 25 anos de ditadura mudou pouco aquela galeria: saíram os militares, entrou outro herdeiro da oligarquia. 

O segundo presidente escolhido nas urnas melhorou significativamente o cenário. Um intelectual, sociólogo, ativo na campanha das Diretas, defensor incansável da democracia. 

Mas faltava preencher um espaço naquele inventário de homens poderosos. Alguém com a cara dos 87% de brasileiros que, em 2002, enquadravam-se nas classes C, D e E. Um filho de agricultores analfabetos cuja enxada não arrancava do solo senão terra seca. Alguém que conheceu a fome não só por ouvir falar; que correu atrás do ônibus, que trabalhou na massacrante escala 6X1; que sonhou com a casa própria, enquanto contava cada centavo para pagar aluguel. Alguém que perdeu o dedo trabalhando e só conseguiu atendimento médico quatro horas depois. Faltava, naquela galeria, alguém do povo. 

Goste-se ou não de Luiz Inácio Lula da Silva, foi ele quem fez a classe trabalhadora subir a rampa do Planalto pela primeira vez. Ao vencer as eleições de 2002, Lula levou para a galeria de fotos dos presidentes o Fabiano de Vidas secas, a Macabeia da Hora da estrela, o Chico Bento de O quinze, o Manuel e a Rosa de Deus e o diabo na terra do sol, a Carolina do Quarto de despejo, o Riobaldo de Grande sertão: veredas. Por isso, obrigada, Lula. 

Ao lado de oligarcas e generais, estavam os pais e avós de tantos de nós. Estavam a moça do cafezinho, o segurança do banco, a babá que cria nossos filhos, o agricultor que cultiva nossa comida, o motorista do ônibus, o gari que limpa nossa sujeira, a empregada que arruma nossa casa. Na foto de Lula, o povo podia se ver. Por isso, obrigada, Lula.

Aos 81 anos, Lula teve coragem de continuar defendendo a democracia e disputou sua sétima eleição presidencial, em um momento de ameaça aos direitos trabalhistas e aos programas de assistência que não só tiraram o Brasil do mapa da fome, como permitiram a mobilidade social. 

Por isso, mais uma vez, obrigada, Lula.  

 

Mais Lidas