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De 1988 a 2026: a longa redemocratização

Profissionalismo e pragmatismo serão indispensáveis para compartilhar decisões, unificar prioridades e preservar a capacidade de coordenação da Presidência

A correlação de forças afasta qualquer fantasia de autossuficiência para Lula -  (crédito: Caio Gomez)
A correlação de forças afasta qualquer fantasia de autossuficiência para Lula - (crédito: Caio Gomez)

Lucas Massimo — professor da Uninter com bacharelado e licenciatura em ciências sociais, e pós-doutorado em ciência política pela USP

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, escolhido para governar o Brasil pela quarta vez, encerrou a eleição mais disputada desde 1989. A diferença de 3,5% de votos entre os candidatos revelou duas concepções de país dificilmente conciliáveis. Quase metade do eleitorado se reconheceu em valores, identidades, expectativas e imagens de futuro distantes do pluralismo inscrito na Constituição de 1988. Com a extrema-direita fortalecida no parlamento, Lula iniciará o quarto mandato numa arquitetura institucional muito distinta daquela que sustentou seus primeiros governos.

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Desde 1988, a democracia brasileira atravessou sucessivas crises amparada por instituições que reagiram e se transformaram. O Congresso ampliou o domínio sobre o orçamento, o Supremo Tribunal Federal (STF) ocupou espaços abertos pela radicalização política, e os governos subnacionais aprofundaram a autonomia conquistada na redemocratização. Essa resiliência alterou o equilíbrio entre os Poderes. O quarto mandato oferece a Lula a oportunidade de revisitar o pacto constitucional, fortalecer a trajetória democrática e construir arranjos políticos compatíveis com um país no qual novas identidades se constituem no ciberespaço, pressionam os partidos, transformam a representação e interditam o debate público.

Essa tarefa começa no sistema partidário. O Brasil não retornará aos anos em que PT e PSDB organizavam dois campos, cercados por poucas legendas satélites. A diversidade do país continuará a produzir uma dinâmica multipartidária. O desafio está em formar um centro democrático capaz de conter a extrema-direita fortalecida nas eleições parlamentares.

A correlação de forças afasta qualquer fantasia de autossuficiência. A federação liderada pelo PT elegeu 88 deputados; o PL, 121. União-PP e Republicanos, com 128 cadeiras, apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno; PSD e MDB também serão decisivos. A maioria de Lula reunirá adversários recentes e partidos distantes do PT. Emendas, ministérios e participação nas decisões servirão à composição. No terceiro mandato, Lula condenou a perda de planejamento causada pelo controle parlamentar do orçamento; no quarto, terá de negociar nesse terreno.

A negociação alcançará a própria composição do governo. Lula precisará entregar poder a aliados conservadores sem permitir que a coalizão fragmente as políticas públicas e a direção estatal. Profissionalismo e pragmatismo serão indispensáveis para compartilhar decisões, unificar prioridades e preservar a capacidade de coordenação da Presidência.

O personalismo conserva enorme peso na política brasileira, e a trajetória de Lula lhe oferece recursos raros. Sua presença pode projetar o Brasil como contraponto democrático à extrema-direita que pressiona instituições em diferentes países. Internamente, as plataformas favorecem parlamentares que transformam o mandato em vitrine pessoal nas redes sociais. Confrontam-se duas formas de representação: uma organizada por partidos, lideranças e maiorias; outra movida pela exposição individual e pelo antagonismo permanente.

Lula terá de empregar sua autoridade na coordenação desse ambiente fragmentado, mediar um Senado inclinado ao confronto com o Supremo e conduzir reformas que protejam a Corte sem torná-la imune à responsabilidade. Fará isso sob forte restrição fiscal, num orçamento disputado por emendas, políticas sociais, investimentos e pessoal.

Um quarto mandato contém grandeza histórica suficiente para alimentar celebrações. O cenário recomenda sobriedade. Lula venceu a Presidência, mas seus adversários conservaram instrumentos poderosos no parlamento e nas redes. Quase metade do país espera um futuro muito diferente daquele que seu governo pretende construir. As urnas renovaram seu mandato, mas também exprimiram uma demanda inequívoca por mudança. O sentido histórico da vitória residirá na capacidade de dirigir essa mudança, cujos rumos permanecem em disputa. Sua tarefa mais difícil será governar uma sociedade dividida entre concepções políticas que mal reconhecem legitimidade umas nas outras.

 

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Por Opinião
postado em 26/10/2026 05:00
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