Artigo

Democracia soberana

A maioria dos brasileiros não tolera qualquer expectativa de retorno do autoritarismo nem de entreguismo

A história se repete. Dizem que se conhece o fruto pela árvore. No domingo, assim que a apuração foi finalizada, Flávio Bolsonaro fez um discurso incendiário, no qual afirmou que não reconhecerá o resultado. Chegou a utilizar o termo "sacanagem". Menos de 48 horas depois de obter 59 milhões de votos, fugiu com a família para os EUA. Os políticos com alma de estadista costumam admitir a derrota e telefonar imediatamente para o adversário, a fim de parabenizá-lo e de desejar-lhe sucesso na condução do país. Flávio fez o oposto do que garantiu durante o debate na TV Globo, na última sexta-feira.

Avisou que pediria a anulação do pleito. No dia seguinte, mudou a tática e prometeu solicitar a revogação da chapa de Luiz Inácio Lula da Silva e de Geraldo Alckmin. Também prometeu que não "desistiria do Brasil". Mais uma vez, palavras ao vento. Os próprios aliados admitiam que a chance de cancelar a votação seria praticamente nula. Em um primeiro momento, se Flávio esperava uma solidariedade irrestrita dos Estados Unidos, ela não veio. Donald Trump sinalizou que a eleição brasileira parecia ter sido "manipulada" e, ao mesmo tempo, disse que gosta de Lula.

Enquanto escrevo esse artigo, leio que Flávio está voando para os Estados Unidos, acompanhado da esposa e das duas filhas. Menos de 48 horas depois de uma virada histórica de Lula, que interrompeu a escalada direitista e ultraconservadora na América do Sul. Colômbia, Argentina, Peru, Chile, Equador, Paraguai e Bolívia são nações comandadas por líderes desse espectro. O triunfo do ex-torneiro mecânico também limitou os planos de Trump de estender o seu Escudo das Américas para todo o subcontinente, bem como negociar as chamadas "terras raras" do Brasil.

Durante toda a campanha, Lula defendeu a soberania nacional e denunciou o intento de entreguismo de riquezas do país por parte do clã Bolsonaro. Sintomático que até mesmo expoentes da direita sul-americana parabenizaram Lula pelo triunfo, enquanto Trump e o argentino Javier Milei permaneceram no silêncio — as reações somente vieram na tarde de segunda-feira. Milei silenciou sobre a vitória do petista. O fantasma de ações de inteligência e militares dos EUA na região, pactuadas pelo Escudo das Américas, foi exorcizado pelo triunfo lulista. Trump encontrará as portas do Brasil fechadas para eventuais operações contra o narcotráfico.

Além do apreço pela soberania, os eleitores enviaram um recado às urnas: a democracia precisa ser protegida até as últimas consequências. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 causou traumas em uma sociedade que lutou com sangue e suor pelo fim da ditadura militar. A maioria dos brasileiros não tolera qualquer expectativa de retorno do autoritarismo nem de entreguismo. A maioria também não tolera que pretensos candidatos a presidente adotem uma postura como a de Flávio, de não provarem sua inocência na Justiça. No domingo, o recado das urnas foi dado. De forma clara, inequívoca e contundente.

 

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