Visão do Correio

Pragmatismo acima das conjunturas

Normalizar as relações com Trump é uma necessidade, demandará tempo, discrição e persistência. As conjunturas passam; os interesses nacionais permanecem

A relação entre Brasil e Estados Unidos é maior do que as afinidades ou divergências entre seus presidentes. Comércio, investimentos, energia, tecnologia e segurança compõem uma agenda de interesses nacionais que atravessa governos. Isso não elimina conflitos: exige capacidade de administrá-los. A diplomacia existe precisamente para construir convergências onde há diferenças e impedir que disputas políticas comprometam vínculos necessários aos dois países.

É fato que a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contrariou as expectativas de Donald Trump, que apostara na eleição de Flávio Bolsonaro. Pelo envolvimento da Casa Branca na disputa brasileira e pela identificação entre os dois movimentos políticos, o resultado adquiriu dimensão internacional. Foi interpretado, em numerosas capitais e por parte expressiva da opinião pública mundial, como uma derrota do presidente norte-americano. O revés ocorre às vésperas das eleições legislativas dos Estados Unidos, nas quais seu partido enfrenta perspectivas adversas.

Seria um erro, entretanto, converter esse contexto específico numa orientação para o relacionamento bilateral. Lula venceu uma eleição brasileira. Não recebeu das urnas a missão de derrotar Trump no cenário internacional, mas a responsabilidade de governar o Brasil. Preservar mercados, atrair investimentos, defender a soberania e ampliar a capacidade de negociação do país são mais importantes do que o constrangimento de um governante estrangeiro.

A cautela do Planalto diante do acolhimento de Flávio nos Estados Unidos segue essa lógica. O episódio acrescenta tensão a uma relação já desgastada e merece acompanhamento atento. Mas transformar cada provocação do senador numa controvérsia entre os dois governos seria entregar ao candidato derrotado uma influência que seu isolamento político no Brasil não sustenta. Pendências judiciais têm canais competentes e independem da agenda diplomática.

Isso tampouco significa aceitar acusações de fraude sem evidências. O resultado das urnas não depende da preferência da Casa Branca. Segundo o material divulgado sobre a avaliação da própria embaixada norte-americana, a vitória de Lula foi considerada definitiva, e os observadores internacionais não questionaram o resultado. Há, portanto, espaço para que a realidade institucional se imponha às conveniências ideológicas, desde que os canais de interlocução permaneçam abertos.

As declarações ambivalentes de Trump aconselham perseverança. Ao mesmo tempo que lança suspeitas sobre a eleição, evita assumir integralmente as pretensões de Flávio e mantém aberta a possibilidade de conversar com Lula. Cabe ao Itamaraty trabalhar nessa abertura, sem confundir disposição para o diálogo com garantia de entendimento.

As eleições de meio de mandato são outra variável. Uma vitória democrata poderá ampliar a fiscalização do Executivo e impor obstáculos à política externa de Trump. Entretanto, enquanto as urnas não falarem, trata-se de uma possibilidade. Mesmo uma derrota republicana não encerraria o mandato presidencial nem eliminaria os instrumentos de pressão da Casa Branca. Brasília precisa negociar com o governo que existe, levando em conta seus limites e contradições.

Pragmatismo exige cálculo e firmeza . O Brasil deve defender sua democracia, contestar medidas que prejudiquem sua economia e buscar acordos onde houver benefício recíproco. Normalizar as relações com Washington é uma necessidade, que demandará tempo, discrição e persistência. As conjunturas passam; os interesses nacionais permanecem. É por eles que Lula deve orientar sua relação com Trump. 

 

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