Renata Rivetti — pesquisadora da ciência da felicidade e das relações humanas
O brasileiro é um povo feliz. Pelo menos, é isso que gostamos de dizer sobre nós mesmos. Somos capazes de rir no meio do caos, encontrar os amigos depois de um dia difícil e manter a esperança mesmo quando as circunstâncias não ajudam. Existe beleza nessa capacidade, mas será que estamos romantizando a nossa resistência?
Tenho me feito essa pergunta com frequência. Afinal, existe uma diferença entre encontrar felicidade apesar das dificuldades e precisar ser feliz apesar de tudo o tempo inteiro.
A segunda edição do Mapa da Felicidade Real do Brasil, que conduzo em parceria com o Instituto Ideia, trouxe um resultado que me fez parar para pensar: o percentual de entrevistados que se consideram felizes caiu de 89,5%, em fevereiro, para 61,1%, em setembro de 2026. Não sabemos o que provocou essa mudança, mas outros resultados também chamam a atenção: menos pessoas dizem ter com quem contar nos momentos difíceis, enquanto mais relatam tristeza ou infelicidade ao usar as redes sociais.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas por que estamos nos sentindo menos felizes, mas o que tem acontecido com as condições que nos permitem viver bem.
Minhas pesquisas e viagens à Finlândia, à Dinamarca e ao Butão ampliaram meu olhar sobre essa questão. Queria compreender como diferentes sociedades lidam com o bem-estar, o tempo e a convivência, para além da ideia de felicidade como uma característica individual. Voltei com uma convicção: a felicidade não depende apenas da maneira como interpretamos a vida, mas também das condições em que vivemos.
Pense em quantas vezes alguém que enfrenta dificuldades ouve que precisa olhar pelo lado positivo, agradecer pelo que tem ou ser forte. Essas frases podem ajudar, mas o problema começa quando se tornam a resposta para qualquer sofrimento. Estamos cansados? Precisamos administrar melhor o tempo. Estamos ansiosos? Precisamos desacelerar. Estamos infelizes no trabalho? Precisamos mudar de atitude.
Mas e quando o cansaço vem de uma rotina que não deixa espaço para descansar? Quando o trabalho exige mais do que conseguimos oferecer? Ou quando não temos com quem dividir o peso de uma fase difícil?
Não é justo transformar o bem-estar em mais uma obrigação para quem já está sobrecarregado.
A primeira edição do Mapa já mostrava que felicidade e sofrimento podem coexistir. Mesmo com quase nove em cada dez brasileiros se declarando felizes, um terço relatava ansiedade frequente e quase três em cada dez conviviam com estresse recorrente. Podemos amar nossa família e ter esperança no futuro mesmo quando estamos exaustos. O problema é concluir que, porque nos consideramos felizes, nossas dificuldades importam menos.
Ter milhares de conexões também não significa ter com quem contar. Na medição mais recente, a parcela de pessoas que afirmam contar com amigos ou familiares nos momentos difíceis caiu de 87,2% para 78,3%.
Vivemos cercados de possibilidades de contato, acompanhando a rotina de amigos, familiares e desconhecidos. Ainda assim, estar conectado não é necessariamente estar acompanhado. Na primeira edição da pesquisa, 66,1% dos jovens de 16 a 24 anos diziam comparar a própria vida com a de outras pessoas nas redes sociais, e 71% relatavam tristeza ao consumir esses conteúdos.
Esses dados não explicam, sozinhos, o sofrimento dessa geração, mas revelam uma questão importante: existe uma distância entre acompanhar tantas vidas e sentir que temos espaço na vida de alguém. Entre receber notificações e experimentar pertencimento.
Vínculos verdadeiros exigem tempo, presença e reciprocidade. Em Helsinque, chamou minha atenção a biblioteca Oodi, que vai além dos livros e se tornou um espaço de encontro e convivência. Na Dinamarca, o conceito de hygge valoriza o acolhimento e o prazer de estar junto. Não se trata de idealizar outros países, mas de perceber que o bem-estar também depende dos espaços e das condições que favorecem as relações.
Essa reflexão vale igualmente para o trabalho. Durante muito tempo, o debate sobre felicidade profissional se concentrou no propósito, na resiliência e na capacidade de administrar as próprias emoções. Tudo isso importa, mas não podemos ignorar as condições em que trabalhamos.
Na primeira edição do Mapa, 56% das pessoas das classes A e B se declaravam muito satisfeitas com a vida profissional, ante 27% nas classes D e E. Sobrecarga, remuneração e liderança ruim estavam entre os fatores associados à infelicidade no trabalho.
Não adianta recomendar equilíbrio a alguém cuja rotina torna o descanso quase impossível. Da mesma forma, a insegurança nas cidades e a desconfiança nas instituições afetam nossa liberdade, nossas escolhas e a maneira como vivemos. A felicidade não é determinada isoladamente por essas condições, mas também não pode ser compreendida sem elas.
Não precisamos deixar de ser fortes. Precisamos poder descansar! Não quero desvalorizar a capacidade brasileira de encontrar alegria nas circunstâncias mais improváveis. Nossos vínculos afetivos, a fé de tantas pessoas e a esperança que atravessa gerações são fontes legítimas de força e sentido. O problema é quando essa capacidade se torna uma justificativa para que nada mude.
Há uma diferença entre reconhecer a força de alguém e esperar que essa pessoa aguente tudo. Entre admirar quem supera uma dificuldade e considerar aceitável que ela continue enfrentando a mesma dificuldade indefinidamente.
Precisamos cuidar das nossas relações, pedir ajuda quando necessário e oferecer apoio a quem está ao nosso redor. Mas não podemos atribuir a cada indivíduo, sozinho, a responsabilidade de superar problemas que também são coletivos.
Os resultados do Mapa da Felicidade Real do Brasil nos convidam a refletir sobre o que sustenta nosso bem-estar e o que o torna vulnerável. Talvez a felicidade não dependa de conseguirmos suportar mais um pouco, mas de termos mais oportunidades de dividir o peso, viver com menos medo e encontrar tempo para quem amamos.
Volto, então, à pergunta que deu origem a esta reflexão: até quando o brasileiro vai precisar ser feliz apesar de tudo?
Uma sociedade que se preocupa com a felicidade não deveria apenas perguntar como as pessoas conseguem seguir em frente. Deveria se perguntar o que precisa mudar para que elas não tenham de fazer isso sozinhas.
