Artigo

Igreja, diploma e a fila do SUS

O centro de Brasília votou em Lula e rachou entre Grass e Celina. O restante do DF deu vitória folgada à direita. Diploma, fé e o que tira o sono de cada lado explicam as fronteiras do voto de 2026

Carlos André Machado  — sócio fundador da Opinião — Inteligência Política e pesquisador de opinião

O mapa do segundo turno no Distrito Federal tem uma ilha. Na Asa Sul, na Asa Norte e no Noroeste, Lula teve 54% dos votos válidos e Leandro Grass, 51,7%. Fora dali, o DF votou como o Brasil conservador: Flávio Bolsonaro fez 55% e Celina Leão, 58%. 

A ilha é pequena e tem margens. Somados Sudoeste, Lago Sul e Lago Norte, o Plano reúne 14% do eleitorado. Ali Lula ainda vence (51,6%), mas Celina não leva por um fio (50,7%). O Lago Sul, um dos endereços mais ricos do país, deu 57% a Flávio. O voto progressista, portanto, não é o voto do dinheiro. É o voto do diploma! 

O centro também não perdeu por faltar às urnas: o comparecimento foi de 83% dentro e fora do Plano. Perdeu porque é pequeno em relação às nossas outras cidades juntas. Só Ceilândia, Samambaia e Taguatinga deram a Flávio 71,5 mil votos de saldo, quase metade da vantagem dele no DF. Para Celina, as mesmas três cidades renderam 100 mil. 

Podemos até dizer que são dois DFs. 

A pesquisa Correio/Opinião feita entre os turnos, com 1.102 eleitores, mede a distância. No Plano, 78% têm curso superior; no resto do DF, 26%. Sete em cada 10 moradores do centro vivem com renda familiar acima de R$ 9,5 mil. Nas demais regiões, 39% vivem com até R$ 3,4 mil e 12% recebem benefício do governo. O governo Lula é bem avaliado por 45% no Plano e por 33% fora dele. 

Entre os eleitores, o diploma separa mais que o bolso! Quem votou em Lula e Grass tem mais curso superior (42%) do que quem votou em Flávio e Celina (31%). Na faixa de renda mais alta, a distância é menor: 29% contra 23%. 

E o que falar sobre religião do eleitor? Se há uma linha que divide os dois DFs, ela passa pela igreja. Fora do Plano, 36% dos eleitores são evangélicos, o dobro do centro (17%). No Plano, crescem os sem religião  (22%) e os espíritas e adeptos de religiões de matriz africana (15%).

Um voto que é fiel e acompanha. Entre os evangélicos, 67% escolheram Flávio e 72%, Celina. Os católicos se dividiram: 50% Lula, 43% Flávio. Quase metade (47%) de quem votou na dobradinha da direita é evangélica. Na dobradinha da esquerda, são 17%, e um em cada cinco não tem religião.

A fé pesa mais que o endereço. Mesmo no Plano, 56% dos evangélicos votaram em Flávio. E fora dele, só 35% dos que não têm religião escolheram o candidato do PL. 

E falando de endereço, o que tira o sono também muda com o CEP. Perguntados sobre o principal problema da família, os moradores do Plano citam a segurança (27%) tanto quanto o custo de vida (26%). No resto do DF, a segurança cai para 9%, e a saúde salta de 5% para 25%. É a distância entre quem tem plano de saúde e quem depende da UPA.

O eleitor de Flávio e Celina fala primeiro do preço da comida (36%) e põe o combate à corrupção no topo das prioridades do governo (24%). O de Lula e Grass cita a saúde (25%) e pede educação básica (32%) e menos desigualdade (11%). 

E afinal, quem decidiu no DF? O eleitor que fez a diferença entre os dois resultados não cabe em nenhum dos dois retratos. Na última pesquisa Correio/Opinião, em outubro, 8% disseram que votariam em Lula e em Celina; e as urnas confirmaram que Lula teve 86 mil votos a mais que Grass. Metade desse eleitor estudou só até o fundamental, metade vive com até R$ 3,4 mil e 23% recebem benefício social. É o eleitor mais pobre do DF, que separa as duas urnas: confia em Lula para o país e na governadora para a cidade onde mora. 

O Distrito Federal de 2026 não é só direita contra esquerda. É uma cidade planejada para ser o centro, cercada por outra que cresceu longe dele, mais evangélica e mais preocupada com a fila do hospital e com o preço do feijão. O Plano vota pensando no país que imagina. O resto do DF vota pensando na cidade que enfrenta todo dia. 

Mais Lidas