Gê Coelho — mestre em filosofia, autor do livro “Favelismo: A revolução que vem das favelas” e líder de Relações Institucionais da Favela Seguros
Existe uma pergunta que costuma aparecer quando se fala em seguros para a população de baixa renda: seguro para quê? A questão revela uma visão limitada sobre a proteção e a realidade de milhões de brasileiros. Nas periferias, há muito a proteger, já que muitas famílias que dependem de uma única renda, trabalhadores que precisam de um veículo para garantir o sustento e empreendedores que têm no próprio negócio sua principal fonte de renda. Diante de um imprevisto, essas pessoas podem perder a capacidade de continuar trabalhando e cuidando de si e de quem amam. O problema não está na falta de riscos, mas na distância histórica entre esses riscos e os instrumentos de proteção disponíveis para enfrentá-los.
O mercado de seguros tem diante de si um desafio econômico e social: ampliar o acesso à proteção financeira. Seguro não tem CEP. Mas, para que a proteção seja efetivamente democrática, é preciso compreender os territórios, suas necessidades e as diferentes formas de viver, trabalhar e empreender. Mais do que oferecer acesso a produtos existentes, o setor precisa refletir sobre quem é considerado na construção das soluções de proteção.
Nasci em uma favela e conheço a força que existe nesses espaços. Conheço os obstáculos de quem enfrenta o acesso desigual a serviços, a dificuldade de construir patrimônio e a instabilidade da renda. Mas, ao longo da minha trajetória, compreendi que as periferias são muito mais do que territórios marcados pela ausência. São espaços de produção, conhecimento, criatividade, solidariedade e capacidade de organização. A vulnerabilidade existe, mas há também potência, trabalho, patrimônio e capacidade de criar soluções.
É a partir dessa experiência que defendo uma reflexão sobre o papel do seguro na construção de uma sociedade mais inclusiva. A proteção financeira não pode ser tratada como um privilégio associado à renda ou ao endereço, mas como parte de uma agenda mais ampla. Isso exige que o setor desenvolva produtos e serviços adequados a realidades diversas, entendendo o que as pessoas precisam proteger e como oferecer soluções que façam sentido em suas vidas.
Nesse debate, proponho a ideia de “concernimento securitário”: o reconhecimento de que diferentes vidas, patrimônios, atividades produtivas e territórios devem ser considerados no campo legítimo da proteção diante dos riscos a que estão expostos. Não se trata de ignorar a sinistralidade ou substituir a análise atuarial, que é essencial à atividade securitária. A questão é o que fazemos depois de reconhecer o risco. Ele deve servir para compreender como proteger ou para justificar a invisibilização de determinados grupos?
Reconhecer realidades distintas pode ampliar a investigação sobre os riscos. Se determinados territórios, patrimônios e atividades possuem características próprias, é necessário conhecê-los e modelá-los. O que não pode acontecer é assumir que aquilo que ainda não foi adequadamente compreendido não pode ser protegido.
Uma experiência da qual participo diretamente ajuda a dimensionar esse potencial. Em cerca de um ano e meio, a iniciativa ultrapassou R$ 100 milhões em capital segurado e ampliou sua atuação para diferentes regiões do país, combinando comercialização de seguros com a formação de profissionais moradores das favelas, o que também contribui para criar oportunidades de trabalho e geração de renda nos próprios territórios.
A preparação para a certificação profissional, aliada à capacitação e ao acompanhamento, aponta para uma dimensão essencial: a democratização do seguro precisa envolver não apenas o acesso ao produto, mas também ao conhecimento e às oportunidades de participação no mercado. Quando um morador de um território periférico é preparado para atuar na distribuição de seguros, pode contribuir para aproximar a linguagem do setor da realidade local, com produtos adequados, condições e informações que permitam ao consumidor tomar decisões conscientes.
Há, porém, uma diferença importante entre acesso, inclusão e concernimento. Acesso é poder utilizar um produto. Inclusão é incorporar grupos anteriormente sub-representados. Concernimento é considerar essas pessoas na própria construção da proteção. Uma porta pode estar aberta e, ainda assim, ter sido projetada sem levar em conta as necessidades de quem pretende atravessá-la. Por isso, não basta levar a favela ao mercado. É preciso permitir que a realidade da favela também questione e contribua para transformar a maneira como o mercado pensa risco, patrimônio e proteção.
O acesso à proteção não pode ser determinado pelo endereço onde uma pessoa vive. A relação também deve acontecer em mão dupla. As empresas tradicionais podem levar conhecimento técnico e acesso a mercados historicamente distantes das periferias, mas têm muito a aprender com esses territórios. As favelas desenvolveram formas próprias de empreender, organizar redes de apoio e criar soluções para problemas cotidianos. Ignorar esse conhecimento significa perder a oportunidade de inovar a partir de experiências que já existem.
Para quem dispõe de reservas financeiras, um imprevisto pode ser difícil, mas administrável. Para quem vive no limite do orçamento, o mesmo acontecimento pode interromper a renda, comprometer a moradia ou desorganizar toda a estrutura familiar. A proteção financeira não elimina desigualdades, mas pode reduzir a vulnerabilidade diante de determinados riscos. Falar de seguro nas periferias é falar de dignidade, autonomia e continuidade. É reconhecer que um imprevisto não deveria representar o desmoronamento de um projeto de vida.
O mercado tem a oportunidade de participar dessa transformação como parte de uma construção que beneficia toda a sociedade. As periferias são parte do presente e do futuro econômico do Brasil. Seus moradores trabalham, empreendem, consomem, criam e movimentam a economia. Seguro não tem CEP. A proteção financeira não deve ser definida pelo endereço de quem precisa dela, mas construída a partir de uma compreensão mais ampla das pessoas, dos territórios e de suas realidades.
O futuro do seguro talvez não esteja apenas na capacidade de vender mais apólices, mas também em ampliar quem é considerado na construção das soluções de proteção. A periferia não está apenas esperando para ser atendida: ela também pode ajudar a construir as respostas. Democratizar o seguro é reconhecer que toda vida tem valor, que todo território produz conhecimento e que proteger melhor exige, antes de tudo, aprender a enxergar melhor.
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