Polêmica

Damares diz que menina de 10 anos estuprada pelo tio deveria ter feito cesárea

Ministra quebrou o silêncio para criticar cirurgião que fez o aborto da criança e internautas rebateram

Correio Braziliense
postado em 18/09/2020 17:09 / atualizado em 18/09/2020 18:20
Em entrevista, ministra ainda disse que não aceitaria uma vaga para o STF por não se sentir apta ao cargo -  (crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil)
Em entrevista, ministra ainda disse que não aceitaria uma vaga para o STF por não se sentir apta ao cargo - (crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil)

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, quebrou o silêncio sobre o caso da criança de 10 anos que engravidou depois de ser sistematicamente estuprada pelo tio no Espírito Santo. "Mais duas semanas poderia ter sido feita uma cirurgia cesárea nessa menina, tirar a criança, colocar numa incubadora, se sobreviver, sobreviveu. Se não, teve uma morte digna", disparou.

Ela falou sobre o caso no programa de televisão Conversa com o Bial, exibido na madrugada desta sexta-feira (18/9). O apresentador questionou a ministra sobre a suspeita de que dois assessores do ministério comandado por ela tenham sido responsáveis por vazar a identidade da criança violentada, mas Damares declarou confiar integralmente na equipe.

"A nossa equipe foi à cidade com um deputado estadual e as três reuniões que fizemos lá foram com muitas pessoas juntas na delegacia, no Conselho Tutelar e na Secretaria de Ação Social. Em momento algum os profissionais disseram para os nossos técnicos o nome dessa menina", argumentou.

Em outro ponto da entrevista, Pedro Bial perguntou se a ministra chegou a ver o trecho de uma live em que o presidente Jair Bolsonaro fez uma brincadeira polêmica com uma menina que também tem 10 anos. Damares disse que não teve tempo de assistir à transmissão e se recusou a ver o trecho durante a entrevista. "É um homem que luta contra todos os tipos de erotização de crianças, de banalização da pedofilia e da pornografia infantil", defendeu.

Justiça precisou ser acionada

O caso da menina no Espírito Santo chocou o país em agosto depois que a família precisou acionar a justiça para ter acesso ao procedimento de aborto legal previsto no Artigo 128 do Código Penal. A criança, de apenas 10 anos, precisou ser transferida para Recife para conseguir interromper a gestação.

O tio, acusado de estuprá-la desde os seis anos de idade, foi preso após passar alguns dias foragido. A violência contra a menina ainda teve outro desdobramento, quando sua identidade foi exposta para todo o país por extremistas religiosos.

Respostas

Nas redes sociais, os usuários criticaram as declarações dadas por Damares em rede nacional. A pesquisadora e professora da Universidade de Brasília (UnB) Débora Diniz usou o perfil no Twitter para declarar-se indignada. "Ministra Damares sai do silêncio para explicar as suspeitas sobre se seus assessores participaram do fanatismo em torno da menina de dez anos estuprada. Defende que a menina deveria ter se mantido grávida, uma cesárea forçada, para oferecer ‘morte digna’ ao feto", escreveu.

A cantora e compositora Karina Buhr também decidiu se manifestar contra o fato de a ministra ter voz para falar sobre esse caso quando a equipe à qual comanda é investigada por violar os direitos da menina estuprada no Espírito Santo vazando a identidade dela. “Naturalização da violência é Damares incensar uma campanha de violência extrema contra uma criança de 10 anos estuprada e grávida e estar agora numa simpática conversa com Bial. Boa noite”, criticou.

Outros usuários também questionaram a possibilidade de a ministra ser indicada para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). “O mero fato de se cogitar o nome de Damares para o STF é ilustrativo de que estamos vivendo um roteiro de filme inimaginável, uma mistura de morbidez moral com a absoluta falta de bom senso”, declarou o perfil de Caio Paiva.

Ainda no assunto STF, houve quem defendesse a ministra. “Damares é a humildade em pessoa. Falou que não aceitaria indicação para o STF por não estar preparada, por estar distante da área jurídica há muitos anos”, escreveu a usuária Duda Mendonça.

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