RELAÇÕES INTERNACIONAIS

"Bolsonaro está virando um grande inimigo global", diz brasilianista

De acordo com James Green, professor de História do Brasil na Brown University e um dos signatários de dossiê enviado a Joe Biden, o presidente brasileiro está isolando o Brasil do resto do mundo

Rosana Hessel
postado em 04/02/2021 15:28
 (crédito: Evaristo Sa/AFP - 17/12/20)
(crédito: Evaristo Sa/AFP - 17/12/20)

O Brasil voltou para os holofotes como pária global, como aponta um dossiê entregue ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e a várias autoridades norte-americanas na manhã desta terça-feira (4/2), apontando retrocessos na gestão do presidente Jair Bolsonaro, que se está se tonando um "grande inimigo global".

“O Brasil está mundialmente conhecido como um lugar que viola os direitos humanos e o meio ambiente. E isso é muito sério”, alertou James Green, professor de História do Brasil da Brown University, dos Estados Unidos, em entrevista ao Correio.

Green é um dos acadêmicos que assinam o dossiê de 31 páginas desenvolvido pela Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil (U.S Network for Democracy in Brazil - USNDB), recomendando o congelamento dos acordos e negociações com o governo Bolsonaro. O professor da tradicional universidade de Rhode Island também é um dos coordenadores da Rede, que é integrada por mais de 1.500 pessoas, em 234 faculdades e universidades de 45 estados dos EUA. 

“A nata da sociedade intelectual dos Estados Unidos tem ouvido os brasileiros e demonstrou que também está preocupada com os retrocessos que ocorrem no Brasil no governo Bolsonaro. O presidente brasileiro está virando um grande inimigo global e isolando o país do resto do mundo”, destacou Green.

Na avaliação do brasilianista, há inúmeros problemas na gestão de Bolsonaro, mas os três maiores pontos de preocupação são: o isolamento internacional; o negacionismo em relação à covid-19 e a má condução do processo de vacinação, sem incentivar o uso da máscara e de medidas preventivas contra pandemia; e o descaso com o meio ambiente, em particular, com a Amazônia e a preservação dos direitos dos povos indígenas e dos quilombolas.

"Bolsonaro não tem simpatia na Europa e entre os integrantes do Congresso dos Estados Unidos. E sabemos disso devido ao trabalho que temos junto aos congressistas nos últimos dois anos”, informou o acadêmico. Ele criticou a falta de comprometimento de Bolsonaro com o combate ao novo coronavírus desde o início da pandemia e, mais recentemente, no processo de vacinação nacional, que virou uma briga política entre ele e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que só prejudica a população.

Green lembrou que a vacinação é o principal motor da retomada da economia mundial. “Durante a campanha eleitoral dos EUA, o debate principal sobre a pandemia mostrava que a economia global e a dos Estados Unidos não vão conseguir se recuperar se o problema da covid-19 não for resolvido. E isso também serve para o Brasil, mas o país ainda está muito atrasado nesse sentido”, destacou.

Na avaliação do especialista, o democrata Joe Biden será sensível às recomendações feitas no dossiê, principalmente, sobre a interrupção de todas as negociações iniciadas pelo antecessor, o republicano Donald Trump. “Será muito difícil qualquer avanço de acordos iniciados por Trump com o Brasil. Será preciso respeitar os direitos humanos, as leis trabalhistas e o meio ambiente”, frisou.

 

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