CPI DA COVID-19

Representante da Davati aponta dois grupos negociando vacinas na Saúde

Depoimento de Cristiano Carvalho à CPI reforça suspeita de senadores de que um grupo chefiado por militares e outro integrado por pessoas ligadas ao Centrão disputavam a negociação de vacinas contra covid-19 no Ministério da Saúde

Sarah Teófilo
postado em 15/07/2021 16:51
 (crédito: Pedro França/Agência Senado)
(crédito: Pedro França/Agência Senado)

O depoimento do representante da Davati, Cristiano Carvalho, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, nesta quinta-feira (15/7), reforça a existência de dois grupos no Ministério da Saúde que disputavam a negociação de vacinas contra covid-19. A questão já é alvo de suspeita dos senadores, que apontam que haveria um grupo formado por militares e outro formado por pessoas indicadas por partidos do Centrão, especificamente o PP e o DEM.

“Havia dois caminhos dentro do ministério, aparentemente — um era via Elcio Franco (ex-secretário-executivo), e um era via Roberto Dias (ex-diretor de Logística) —, e um não sabia do outro”, disse. A Davati tentou vender ao governo 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca, apesar de a farmacêutica afirmar que não atua com intermediários e que negocia diretamente com governos. O cabo da Polícia Militar Luiz Paulo Dominghetti, apontado como vendedor autônomo de vacinas pela Davati, denunciou à CPI que, ao tentar vender imunizantes, recebeu de Dias um pedido de propina de US$1 por dose de imunizante.

Apresentações

Cristiano Carvalho citou Odilon, identificado pela CPI como Guilherme Filho Odilon, que segundo Dominghetti, o apresentou ao tenente-coronel Marcelo Blanco, ex-assessor do Departamento de Logística. Blanco, por sua vez, o apresentou a Dias. “O caminho que ele (Dominghetti) tentou via Roberto Dias, aparentemente, não prosseguiu por conta de algum pedido que foi feito lá (de propina), segundo chegou para mim num primeiro momento, como grupo do Blanco ou grupo do Odilon. Aparentemente não estava prosseguindo por causa disso”, disse.

E completou dizendo que, paralelamente, no âmbito da negociação da Davati, houve uma busca direta pelo ex-secretário Elcio Franco, por intermédio do Instituto Força Brasil, presidido pelo tenente-coronel Helcio Bruno de Almeida, citado em conversas entre Cristiano e Dominghetti como “Helcio com H”. “Acho que no intuito, ao meu ver, de driblar, inclusive, essa resistência por parte do comissionamento ou algo que o valha. São dois caminhos completamente diferentes”, disse.

O representante afirmou: “Roberto Dias não tinha conhecimento de que a gente estava falando com o Elcio Franco naquele dia (12 de março). Inclusive, recebi uma ligação naquele mesmo dia, daquele senhor Odilon, (dizendo) que tinha um contato com o Roberto Dias, me indagando se eu tinha estado no ministério (da Saúde)”.

Perguntado se sentia divergência entre os dois grupos, afirmou que sentiu que Elcio Franco “não tinha conhecimento algum do que o Roberto Dias estava tratando”. A CPI suspeita que havia uma disputa entre Franco e Dias. “Isso me chamou bastante a atenção. Inclusive, eu fiz questão de mencionar isso a ele, porque eu também estava achando estranho; porque você negocia com uma pessoa e negocia com outra, dentro do mesmo ministério, para um assunto tão grave? Então, vamos dizer assim, a gente não pode falar duas coisas diferentes. Não pode ter dois grupos tentando comprar vacina”, afirmou.

Cara de paisagem

Cristiano Carvalho ainda relatou que, em 12 de março, quando esteve com o coronel Elcio em Brasília, mencionou que estava em tratativas também com Roberto Dias, e o coronel disse que desconhecia. “Inclusive o Coronel Boechat e o Coronel Pires estavam no mesmo ambiente, ali, e um olhou para o outro... Tipo, os três ficaram com cara de paisagem. Tipo assim: ‘Não estamos sabendo o que está acontecendo aqui, dentro do ministério’”, afirmou.

O representante afirmou que coronel Boechat lhe foi apresentado dentro do Ministério da Saúde como responsável por finanças. Já o coronel Marcelo Pires é ex-diretor de Programa do Ministério da Saúde.

Questionado, ainda, se havia divergência ou disputa entre dois grupos, afirmou: “Como um não sabia de que o outro estava negociando e com quem, aparentemente tinha alguma coisa divergente entre eles ali”. Cristiano Carvalho frisou que os dois grupos eram absolutamente distintos, e que o pedido de comissionamento partiu do grupo de Blanco e Roberto Dias, conforme informado pela Dominghetti, e que por parte de Elcio Franco nunca houve nenhum pedido diretamente a ele.

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