Entrevista

'Crime organizado já está no mercado financeiro', diz Alessandro Vieira

Relator da CPI, senador  pede mais 60 dias para cruzar dados sigilosos e concluir investigação sobre lavagem de dinheiro e infiltração das quadrilhas no poder público

Com 28 assinaturas reunidas para prorrogar a CPI do Crime Organizado, o senador Alessandro Vieira afirma que ainda há um volume “muito significativo” de dados sigilosos a serem analisados e cruzados antes da conclusão dos trabalhos. Em entrevista ao Correio, ele aponta indícios de infiltração de facções no mercado financeiro, no setor de combustíveis e no poder público, além de destacar que a lavagem de dinheiro evoluiu para mecanismos sofisticados, como fundos de investimento e criptomoedas. O parlamentar também cita a necessidade de ouvir autoridades-chave, como dirigentes do Banco Central e governadores, para consolidar o relatório final.

A decisão sobre a continuidade da comissão caberá ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já que o prazo atual se encerra em 14 de abril. Instalada em novembro, a CPI busca mais 60 dias para concluir a análise documental e apresentar suas conclusões. O calendário apertado pressiona o colegiado, que ainda prevê ao menos quatro oitivas nesta semana. Entre elas, a do ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que obteve no Supremo Tribunal Federal, por decisão do ministro André Mendonça, o direito de não comparecer. Ainda assim, a audiência está mantida, assim como o depoimento do secretário nacional de Políticas Penais, André de Albuquerque Garcia.

Vieira também admite resistências, sobretudo diante do alcance das investigações. Segundo ele, embora haja algum incômodo no Congresso, as maiores dificuldades têm vindo do Judiciário, enquanto a CPI avança sobre setores sensíveis e atores “muito poderosos”. 

O senhor reuniu 28 assinaturas para prorrogar a CPI. O que exatamente ainda não foi concluído que justifique mais 60 dias de investigação, e qual seria o prejuízo concreto para o país se a comissão for encerrada agora?

Temos um volume muito significativo de dados de quebra de sigilo que precisam ser analisados e cruzados. Além disso, temos depoimentos que entendemos serem importantes para elucidar o que está previsto no nosso plano de trabalho. O escopo da CPI é a análise da ação do crime organizado no Brasil, abordando pontos como a lavagem de dinheiro e a infiltração via corrupção no poder público. Portanto, precisamos de mais tempo para concluir essa análise.

Há resistência dentro do Senado ou do próprio Congresso à prorrogação da CPI? O senhor acredita que interesses políticos ou econômicos estão dificultando o avanço das investigações?

A maior dificuldade hoje não está no Congresso, mas sim no Supremo. Contudo, no Congresso, há pessoas com resistências, pois as investigações tocam em atividades de pessoas muito poderosas.    

Sobre depoimentos e análises ainda pendentes, quais são as oitivas consideradas decisivas para os próximos dias e que podem mudar o rumo das conclusões da CPI?

É fundamental ouvir os presidentes do Banco Central, Campos Neto e Galípolo. Os governadores do Rio de Janeiro e do Distrito Federal também são relevantes. O governador Cláudio Castro comprometeu-se a comparecer na próxima semana, enquanto Ibaneis Rocha recorreu ao Supremo para não vir. Estamos reunindo dados para traçar um retrato da atuação dessas figuras, seja no combate ao crime ou como gestores de estados que sofreram infiltração.

Um dos focos da investigação é o chamado braço financeiro das facções. Até que ponto há evidências de que essas organizações estejam operando dentro do sistema bancário ou do mercado de investimentos?

Existem várias investigações em andamento no Brasil que apontam isso, e a CPI tem recebido dados nesse sentido. É natural que a lavagem de dinheiro, antes feita por métodos rudimentares, hoje ocorra no mercado financeiro, seja por fundos de investimento ou criptomoedas. Isso está muito bem demonstrado e precisaremos de reforço na estrutura de fiscalização.    

A CPI já identificou indícios de infiltração do crime organizado na economia formal. Há nomes, empresas ou setores específicos sob suspeita que o senhor pode confirmar neste momento?

É muito clara a infiltração do crime organizado no mercado financeiro e no segmento de combustíveis, além da infiltração no poder público por meio da corrupção. No momento, não posso citar nomes.

 
 

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