
A família Bolsonaro passou a ter sua liderança contestada no espectro político da direita desde que vieram à tona os áudios que ligam o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. A avaliação é de Renan Santos, pré-candidato do Missão à Presidência da República. Nesta entrevista às jornalistas Mariana Niederauer e Adriana Bernardes, em mais uma edição do CB.Poder Especial — uma parceria entre Correio e TV Brasília — com os postulantes ao Palácio do Planalto, considera que a situação do filho 01 se complicou. Segundo Renan, o desgaste de Flávio beneficiou-o com o eleitorado jovem. Também fala sobre escala 6 x 1, empreendedorismo, programas sociais e crescimento do país. Leia os principais trechos a seguir.
O senhor considera que o senador Flávio Bolsonaro se sustenta como candidato à Presidência depois dos áudios enviados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro?
A família Bolsonaro só existe politicamente se continuar participando de eleições. O objetivo da candidatura do Flávio este ano era manter a liderança sobre o bloco, mesmo se perdesse para o (presidente) Lula. Entretanto, isso tem limites. A briga ali dentro do PL, e dentro do próprio bolsonarismo, é se vão até o fim com uma candidatura que, hoje, eles têm certeza de derrota — mas, ainda assim, mantêm uma liderança sobre aquilo que a gente chama de antipetismo — ou se desiste de vez, o que seria, do ponto de vista político, o fim da família como uma marca política poderosa. É esse o dilema. O tamanho do escândalo não imagino que ele se importe tanto. Ele só se importa com o tamanho do dano. A gente precisa entender: nem todo antipetista é bolsonarista, mas todo bolsonarista é antipetista. Uma parte que realmente defende os Bolsonaros sob qualquer circunstância vai ficar com eles até debaixo d'água. O eleitor antipetista mais urbano, mais jovem, já falou: "Isso é demais para mim. Não dá para transigir com isso".
Assista:
A pesquisa Atlas mostrou que sua candidatura ganha num cenário sem Flávio Bolsonaro.
Não ganhei tanto quanto as pessoas imaginam. Estava apresentando um crescimento consistente na Atlas porque era o mais desconhecido. Faço uma conversão eleitoral. O que é uma conversão? Uma coisa é: "não há o Flávio, vou no Zema"; "não há o Flávio, vou no Caiado". Outra é: "acredito no projeto desse cara". Estou fazendo isso. Tanto que há uma outra pesquisa que mostra que viro eleitores do Lula, que votaram nele na última eleição, e eleitores dos Bolsonaro. É um modelo diferente, é um convencimento de tese. Um líder não pode ficar seguindo o caminho de outro no sentido de que havia uma fila de pessoas seguindo os Bolsonaro. Eles seguem um caminho apontado pelo Bolsonaro, aguardando o erro deles. Tenho que apontar o meu caminho. Por isso, quando precisava apontar os erros do Bolsonaro, apontei.
Qual é a política para governar um país que está envelhecendo rápido?
Estamos falando especialmente de SUS. Se eu falar em atendimento às pessoas mais velhas, estou falando de um país que tem um Sistema Único de Saúde que é alvo de críticas. Eu mesmo criticava o SUS pelo elemento centralizado dele. Mas, hoje com a inteligência artificial, sistemas de saúde centralizados levam grande vantagem sobre os descentralizados. Para isso, a gente precisa colocar prontuário único e outros instrumentos que vão pegar todas as visitas que uma pessoa fez numa UPA, numa UBS, exames, ocorrências que essa pessoa teve. Tem uma capacidade preditiva para permitir que o sistema saiba que essa pessoa vai desenvolver diabetes, uma doença coronária, um câncer. Logo, faço as políticas preventivas. A China está indo por esse caminho, a Inglaterra, El Salvador e vamos usar a inteligência artificial a nosso favor, que atinge as pessoas mais velhas. O Brasil, conforme vai envelhecendo, vai diminuir os gastos em educação e aumentar os gastos em saúde. É a lógica dos países que envelhecem.
Qual é a proposta do senhor para combater a violência contra a mulher?
Quando rodo o Brasil, pergunto a preocupação das mulheres, especialmente as mais humildes, que estão num estado de vulnerabilidade maior. Há um surto de violência contra a mulher. As redes sociais permitem que esses casos se tornem públicos. Precisamos dar lei e ordem, penas muito duras e não apenas com relação à violência específica.
Como o senhor explica que, apesar de ter aumentado a pena, os feminicídios continuarem crescendo?
Hoje tem uma métrica que não existia. Estamos trazendo luz para isso. Vou trabalhar com aumento de penas. Não vou trabalhar com critérios subjetivos, como aconteceu agora. Uma discussão que pode ser tratada como misógina é equiparada à injúria racial. Não vou trabalhar nesses termos porque traz uma subjetividade que não é boa nem para a relação homem-mulher.
É contra a criminalização da lei da misoginia?
Sou profundamente contra essa lei. Quero aumento de penas e quero lei e ordem.
Qual a sua opinião sobre programas sociais, como Bolsa Família, Farmácia Popular, Auxílio Gás...
A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Acredito que temos que ter políticas de assistência para pessoas em situação de vulnerabilidade e em locais onde não há atividade econômica. A partir do momento que a gente percebe que mais de 40% dos domicílios na Região Nordeste estão no Bolsa Família, a gente percebe que o remédio começou a virar veneno. Quero um geração de frentes de trabalho nos municípios que têm baixa infraestrutura e que têm pessoas no Bolsa Família. Precisamos recriar nas pessoas a sensação e a ideia de que o trabalho as libertará de um modelo político, hoje, que é o modelo de exploração. Isso terá um efeito muito grande na vida das pessoas e na autoestima das pessoas.
Qual a sua avaliação sobre o fim da escala 6 x 1?
A proposta do governo federal é irresponsável. O Brasil é um país que perde espaço nas cadeias globais de produção. A gente está falando de ter emprego de qualidade. Pequenos serviços não vão ter condição de arcar com isso. O governo não está se importando, especialmente hoje numa trajetória de aumento de impostos sobre os negócios. Precisamos flexibilizar o mercado de trabalho e aumentar a agenda de competitividade do Brasil.
O que o senhor chama de flexibilizar o mercado?
As pessoas têm que ser mais autônomas para fazer contratações, demissões e as relações de trabalho entre as partes.
E para quem não é sindicalizado? Estamos vivendo um cenário de enfraquecimento dos sindicatos, aprofundado pelo governo Bolsonaro.
Prefiro um enfraquecimento do sindicato do que enfraquecimento do emprego.
O senhor defende o fim da CLT?
Gostaria de chegar no horizonte em que a CLT perca totalmente a função, porque é um modelo de contratação dos anos 1940, que já não existe mais. Hoje as pessoas constroem suas carreiras em múltiplas empresas. Muitas pessoas se tornam empreendedores.
Como o senhor acredita que a massa da população, que não tem informação sobre a tecnologia, vai conseguir gerir a própria carreira e ter sucesso?
Uma pessoa mais pobre, mesmo sem informação, não é um imbecil. Toma decisões econômicas adequadas à realidade dela para ter o autossustento. Uma pessoa que é entregador, que vende produtos on-line e com baixíssima formação, tira R$ 6 mil, R$ 8 mil por mês. Estou falando do pessoal da periferia de São Paulo, do meu eleitor — que é o jovem. Esse jovem aprendeu a navegar nesse mundo. Primeiro: ele não é um imbecil completo, é capaz de se defender. Segundo: isso não é tão complexo assim. E, terceiro, que os países que concorrem conosco têm regimes flexíveis.
Houve uma mudança, há cerca de 40 anos, de redução da jornada de trabalho. E o país continuou se desenvolvendo.
Não continuou.
O senhor, como pré-candidato, está a par dos números e dos índices de desenvolvimento do país. O país cresceu muito, hoje é um expoente na América do Sul e é um expoente no mundo.
Não é.
Por que o senhor acha que a redução da escala 6 x 1 vai trazer um retrocesso?
Produtividade é a quantidade de dinheiro que uma pessoa faz por hora de trabalho. O Brasil está estagnado. Nos últimos 40 anos.
Mas não estamos falando em produtividade, estamos falando em movimentação da economia, em geração de emprego, melhoria da qualidade de vida, inclusão, em retirada do país do mapa da fome.
Produtividade significa a quantidade de recursos gerados por hora por uma pessoa que trabalha. Isso está ligado ao aumento de riqueza. O papel do Brasil perante o resto do mundo diminuiu, esse é um problema.
*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi
Saiba Mais
Mariana Niederauer
EditoraFormada em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), se especializou na cobertura de educação. É editora do site do Correio Braziliense desde janeiro de 2021. Já passou pelas editorias de Cidades, Eu, Estudante e Trabalho&Formação Profissional

Política
Política
Política