O senador Ciro Nogueira (PP-PI) e a filha, Maria Eduarda Nogueira, viajaram para a França em 2024 e 2025 junto com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e da então namorada dele, a influenciadora Martha Graeff. A proximidade entre as famílias voltou ao centro das atenções depois da nova etapa da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) na quinta-feira, que investiga supostas vantagens financeiras e patrimoniais ao parlamentar.
Imagens obtidas pelo Correio mostram Maria Eduarda — que é influencer e conhecida nas redes sociais com Duda Nogueira Lazarte — e Martha em registros de viagens e eventos privados, tratando-se publicamente como amigas. A viagem à estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses, antes de a PF apontar indícios de uma relação que, segundo os investigadores, extrapolaria os limites de amizade entre Vorcaro e o presidente nacional do Progressistas. A operação apura repasses financeiros, aquisição de participação societária e benefícios concedidos ao senador e pessoas ligadas a ele.
Os registros dessa viagem foram publicados no Instagram pessoal de Martha. Nas fotos, a ex-namorada de Vorcaro posta a seguinte legenda em inglês: "Nothing more delicious than sunny mountain days (numa tradução livre, "nada melhor do que dias ensolarados na montanha").
Mas essa não foi a única viagem que uniu as famílias Nogueira e Vorcaro. Ciro esteve com a filha em Paris, meses antes, em mais uma estadia que teria sido toda bancada pelo dono do Master. O senador também foi, em 2024, a Nova York, em outra viagem cujos custos saíram do bolso do ex-banqueiro.
A investigação também alcançou a empresa CNFL Empreendimentos Imobiliários, alvo de mandados da PF por ter recebido pagamentos de uma companhia vinculada ao dono do Master. A empresa tem como sócios integrantes da família do senador, incluindo Maria Eduarda e outra filha, Iracema Nogueira, além da ex-mulher do senador, Eliane Nogueira. O próprio Ciro e o irmão, Raimundo Nogueira, também aparecem no quadro societário.
Segundo dados da Junta Comercial do Piauí, Maria Eduarda e Eliane concentram a maior parte do patrimônio da empresa, com 47% de participação cada uma. Iracema tem 5%, enquanto Ciro detém 1% da sociedade. A PF investiga se os pagamentos feitos à companhia teriam sido utilizados para ocultar vantagens indevidas ligadas ao suposto esquema envolvendo o Master.
Reação
Ciro divulgou ontem uma nota nas redes sociais em que reage à operação da PF. Segundo o parlamentar, há uma tentativa de "manchar" sua honra pessoal. Ele atribui o episódio a perseguições políticas comuns em anos eleitorais.
"Todo ano político é a mesma coisa. Tentam parar de todas as formas quem lidera as pesquisas de intenção de votos", escreveu o presidente nacional do PP. O senador também relembrou as eleições de 2018, quando foi alvo de investigações às vésperas do pleito. Segundo ele, o episódio teria provocado efeito contrário ao esperado pelos adversários políticos, impulsionando sua candidatura no Piauí.
Na nota, Ciro afirma que as acusações feitas contra ele no passado foram posteriormente arquivadas e usadas como exemplo de sua inocência. "Na primeira tentativa de me parar, o devido processo legal apurou as ilações e mentiras contra mim e ficou comprovada a minha inocência", frisou. O senador ainda questionou os impactos das denúncias sobre sua imagem pública e disse que ataques sem fundamentos deixam marcas irreparáveis.
O parlamentar também afirmou que continuará atuando politicamente no estado e que não pretende se afastar da vida pública diante das investigações. "Nada me faz abandonar o povo que confia em mim", escreveu. Na mensagem, Ciro disse ainda que os acontecimentos recentes lhe dão "mais energia" para continuar buscando recursos para o Piauí e combater o que chamou de tentativa de permitir que "os maus governem sobre os bons".
Ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, o senador esteve cotado para assumir a vice na chapa encabeçada pelo filho 01 do ex-presidente, o também senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O pré-candidadato, porém, vem afirmando a interlocutores que prefere ter uma mulher como companheira de chapa. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP) são as mais cotadas.
Pelo menos um efeito da operação contra Ciro provocou mudanças súbitas de plano: a cerimônia que formalizaria apoio do PP à pré-candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), na segunda-feira, foi cancelada. Não há, por ora, nova data.
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