Eleições 2026

À la Milei, Zema assume bandeira do ultraliberalismo para ocupar um lugar à direita

Inspirado no presidente argentino, pré-candidato do Novo tenta se desvencilhar da associação com os radicais da extrema-direita ideológica ligada ao bolsonarismo sem perder a combatividade

Na Argentina, a campanha eleitoral que levou Javier Milei à Casa Rosada foi marcada por símbolos e discursos contra o tamanho do Estado, os gastos públicos, programas sociais e as empresas estatais. E carimbou na mente do eleitor que os responsáveis pelo desastre econômico que dura mais de 30 anos formam uma "casta" privilegiada que não quer largar mão dos privilégios. Para simbolizar tudo isso, uma motosserra: "Vamos cortar tudo".

A forma como Milei venceu a eleição por um partido criado por ele mesmo, com um projeto de governo que o próprio presidente classifica como ultraliberal libertário, vem servindo de inspiração para o pré-candidato do Partido Novo à Presidência, o ex-governador Romeu Zema. Imprensado à direita do espectro político pelo filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que comanda amplamente as intenções de voto dos eleitores conservadores, Zema vê no liberalismo radical de Milei uma forma diferenciada de se apresentar ao eleitor.

Enquanto, na Argentina, os inimigos do povo estão na "casta", aqui, para Zema, a briga é com os "intocáveis" — ambos se referindo à parcela da elite do serviço público e dos empresários que se beneficiam de negócios com o Estado. Palavras de fácil compreensão que se encaixam em qualquer discurso que oponha o povo às mordomias do poder. Esse foi um dos trunfos de Milei para derrotar os partidos tradicionais da política argentina.

No campo simbólico, porém, a motosserra empunhada por Milei, representando o corte profundo das despesas do Estado e das mordomias da elite dirigente, não será adotada por Zema. Mas a metáfora se mantém na propaganda do ex-governador: "Vamos passar a faca", diz, em uma de suas postagens nas redes sociais em que a foto de Milei aparece sobreposta à do pré-candidato.

A defesa da venda das empresas estatais é um exemplo da estratégia de Zema de enfrentar temas que candidatos tradicionais costumam evitar, como a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, por exemplo. Na semana passada, em um vídeo, ele disse que "privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil é decisivo para o nosso futuro, privatizar, poupar, não roubar, prosperar. Esse é o plano e ele é implacável".

Nas andanças pelo país, o ex-governador prega a adoção de um severo ajuste fiscal, caso eleito, que poderia render aos cofres públicos uma economia de R$ 10 trilhões ao longo de duas décadas. Uma reforma baseada nas privatizações, nas reformas administrativa e previdenciária e na revisão de benefícios sociais. O impacto seria direto, segundo ele, na política monetária, para que "a perspectiva para os juros no Brasil tenha uma mudança muito rápida, e esse resultado é factível", disse o candidato, em entrevista a uma emissora de TV paulista.

Zema não teme nadar contra a corrente. No debate sobre a adoção da escala de trabalho 5x2, que ganha defensores da esquerda à direita — e que deve ser votada no segundo semestre pelo Congresso Nacional —, o candidato do Novo é voz dissonante. "Uma medida dessa não deveria nunca ser analisada, proposta num ano eleitoral. Populismo puro", afirmou, em entrevista em Goiânia.

O mineiro propõe a adoção de um regime semelhante ao dos Estados Unidos, em que as remunerações variam de acordo com a carga horária. "O brasileiro é que vai escolher. Eu vou fazer um contrato de 20, 30, 40, 50 horas (por semana), é disso que precisamos", declarou.

Outra posição ultraliberal polêmica é a defesa do trabalho infanto-juvenil. A legislação brasileira proíbe o trabalho infantil, ou seja, de menores de 16 anos, com a possibilidade de, aos 14 anos, o adolescente poder entrar no mercado como aprendiz. Em pleno Dia do Trabalhador, Zema aproveitou a polêmica para marcar posição no espectro ideológico ao dizer que "a esquerda criou a noção de que trabalhar prejudica a criança".

"Zema circula entre o ultraliberalismo e o antissistema, ele busca um discurso alternativo em relação a todos os outros para ver se consegue ser notado", avalia o doutor em ciência política e professor da PUC de Minas Gerais Malco Camargos. Para ele, há diferenças de fundo entre as realidades socioeconômicas da Argentina e do Brasil pós-Plano Real, o que significa menos espaço para Zema se colocar do que Milei teve nas eleições argentinas.

"O ultraliberalismo, na Argentina, tinha muito mais possibilidade de defesa, dada a força do Estado e das corporações. Não é a mesma lógica do Brasil. Aqui, não temos categorias de trabalhadores tão organizadas como lá, e o Estado não é tão benevolente assim com quem está um pouco acima da linha da pobreza. Aqui, o Estado cuida bem dos mais pobres, mas da classe média baixa, da classe média tradicional, não dá a atenção que se dá na Argentina", avalia o acadêmico.

Na mesma linha de análise, o doutor em ciência política pela UnB Leonardo Barreto diz que a comparação com Milei "cabe nesse processo", mas ressalva que Zema "não é um outsider, é um político experimentado", e que a agenda liberal ortodoxa já foi tentada no Brasil, com roupagem mais suave, nos anos do governo de Fernando Henrique Cardoso. "Não é um exemplo de agenda bem-sucedida, o eleitor anda desconfiado com o neoliberalismo", comentou Barreto.

Ao adotar o discurso econômico ultraliberal, Zema tenta se desvencilhar da associação com os radicais da extrema-direita ideológica ligada ao bolsonarismo sem perder a combatividade, mas não a ponto de afugentar os eleitores do campo conservador. Em temas como a segurança pública, por exemplo, ele tenta criar uma conexão com esse eleitorado ao defender medidas duras de combate ao crime inspiradas no modelo implantado por Nayib Bukele em El Salvador.

No país da América Central, o presidente comanda um governo iliberal, em que controla as instituições governamentais e os poderes Legislativo e Judiciário. O país ficou internacionalmente conhecido por adotar uma política de repressão severa ao crime organizado baseada em prisões em massa, em que os detentos são levados para gigantescos presídios de segurança máxima — modelo criticado por organizações internacionais de defesa dos direitos humanos.

"Estive em El Salvador e eles são um dos casos mais bem-sucedidos do que podemos fazer. Temos que encarecer o custo do crime e eu vou acabar com ele, custe o que custar", afirmou Zema recentemente.

Visibilidade

O problema, para analistas políticos ouvidos pelo Correio, é que Zema e seu ultraliberalismo miram a franja "à direita da direita", o que reduz o universo de votos disponíveis, que já são poucos, de acordo com as últimas pesquisas. Os eleitores que vão decidir o pleito de outubro estão, segundo as pesquisas, do outro lado, no centro e na centro-direita não bolsonarista.

"Zema se posiciona mais à direita do que o próprio Flávio (Bolsonaro), principalmente na economia, disputa um eleitorado que está no cantinho do espectro. Mas o espaço que está mais aberto é o da centro-direita. Vai ganhar a eleição quem conquistar o voto da centro-direita", prevê Camargos. Mas o professor faz uma ressalva: as brigas que Zema compra aumentam a visibilidade da candidatura dele.

"Isso está acontecendo, ele tem tido mais espaço no noticiário do que os outros candidatos que concorrem com ele — Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) — justamente por suas falas mais heterodoxas. No início da campanha, faz sentido dar visibilidade a ele para, depois, fazer uma correção de rota. Mas é uma candidatura que não tem qualquer possibilidade neste pleito. Ele pode voltar à vida privada depois das eleições", vaticina o professor.

Com poucas chances de chegar ao segundo turno das eleições, dada a cristalização da ampla maioria do eleitorado em torno de Lula e Flávio Bolsonaro, um dos objetivos do ex-governador mineiro "é sair maior do que entrou", segundo um estrategista da campanha ouvido pela reportagem. O exemplo citado nas reuniões do núcleo político do candidato é o da ex-ministra do Planejamento Simone Tebet, que entrou na disputa da última eleição presidencial como candidata pelo MDB e conseguiu projeção para furar a bolha da polarização, chegando ao terceiro lugar com os votos do eleitorado de centro. Hoje no PSB de Geraldo Alckmin, ela lidera as pesquisas de intenção de votos ao Senado, em São Paulo.

Sobre a comparação com Milei, a opinião majoritária no staff da campanha é a de que o presidente da Argentina "é um cara meio esquisito", a economia de lá tem diferenças profundas em relação à brasileira, e uma associação direta "pode dar errado". Mas a imagem de Javier Milei continua sendo usada nas redes sociais de Romeu Zema pelo apelo simbólico.

À direita da direita

Pré-candidato do Novo, Romeu Zema não é bolsonarista, mas sabe que não pode prescindir desse eleitorado. Para avançar nas pesquisas, ele terá que pescar votos nas franjas da direita ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como avaliam cientistas políticos que acompanha a corrida presidencial. Com posições diferentes sobre temas econômicos em relação ao candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, o ex-governador de Minas usa a cartilha da direita radical de eleger inimigos que precisam ser derrotados para criar engajamento emocional. O alvo escolhido é o Supremo Tribunal Federal.

Ao bater de frente com os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, e explorar esse embate nas redes sociais, Zema ganha seguidores e espaço na mídia. O mesmo enfrentamento se dá na Argentina, entre o presidente Javier Milei e a Corte Suprema de Justiça do país, que está funcionando com apenas três dos cinco juízes porque o Senado não aprova os dois nomes enviados pelo presidente, criando um impasse institucional. Lá, Milei chama os magistrados de "casta". Aqui, Zema os trata como "intocáveis".

Há duas semanas, em uma entrevista ao jornal O Globo, Gilmar Mendes disse que Romeu Zema "fala uma língua próxima ao português", em comentário irônico sobre a forma de falar do ex-governador. Zema foi às redes para dizer que não fala "o português esnobe dos intocáveis de Brasília". O bate-boca rendeu muitas curtidas ao pré-candidato.

No sábado (9/5), virou a mira para Moraes, que decidiu suspender a Lei da Dosimetria (que pode reduzir a pena dos condenados pela tentativa de golpe de Estado, em 2023) até que a Corte julgue todos os recursos contra o texto final promulgado neste fim de semana pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (UB-AP).

"O voto do brasileiro já não vale mais nada. Um juiz, que se considera intocável, atropela o Congresso e fere mais uma vez a democracia brasileira. Sem ter recebido um único voto, desrespeita representantes eleitos pelo povo e amplia o sofrimento de presos perseguidos há anos por uma Justiça que deveria protegê-los", escreveu o ex-governador em suas redes.

O comando da campanha de Zema avalia, porém, que essa briga com o Supremo, apesar da boa performance nas redes, ainda não repercute nas pesquisas. "O efeito é pequeno", reconheceu um interlocutor do pré-candidato. A equipe identificou que temas econômicos polêmicos, como a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, são mais eficientes para ampliar o debate em torno do nome dele.

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