A corrida eleitoral de 2026 vem sendo encabeçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um cenário que deve ser movimentado até o pleito de outubro. Na última semana, o presidente deu início informal à campanha, que começa, oficialmente, em 16 de agosto, e anunciou novas medidas a menos de cinco meses para a disputa nas urnas.
Ele também deve aproveitar para surfar na má fase do adversário, após a revelação de conversas entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mas deixará os ataques aos ministros palacianos.
A estratégia, segundo os governistas, será focar nos últimos projetos anunciados pelo governo federal. Na semana passada, o Planalto oficializou o Programa Brasil contra o Crime Organizado — foca dono combate às facções criminosas. Além disso, zerou a chamada “taxa das blusinhas”, imposto impopular criado em junho de 2024 que taxou em 20% as compras internacionais de até US$ 50 e que pegou o Congresso e a oposição, que se articulava para derrubar a medida, de surpresa.
A pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira, antes da reportagem do portal Intercept Brasil que revelou Flávio negociando R$ 134 milhões com Vorcaro para o filme do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulado Dark Horse, apontou que Lula tem 39% das intenções de voto ante os 33% de Flávio no primeiro turno.
Ontem o Datafolha indicou ambos empatados numericamente em um eventual segundo turno, em pesquisa feita antes do vazamento dos áudios. Com discursos carregados de indiretas em suas agendas e as medidas de cunho eleitoral, o atual presidente partiu para a campanha antecipada, na avaliação do cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Murilo Medeiros.
“Lula entrou claramente em modo campanha e passou a explorar deforma mais intensa os instrumentos eleitorais da incumbência para tentar inverter um cenário de desgaste e emplacar uma agenda positiva sobre sua gestão”, analisou.
Para ele, Lula pode estar tentando “reconectar o governo com segmentos que demonstraram maior distanciamento nos últimos meses, especialmente mulheres, jovens e parte da classe média urbana”.
Uma das matérias enviadas ao Congresso Nacional, a Medida Provisória (MP) que institui a subvenção de até R$ 0,89 para a gasolina, encaminhada em abril, precisará ser analisada até 11 de julho. A matéria é um esforço para conter os impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã nos preços dos combustíveis. Lula, que anda com as relações estremecidas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), dependerá de boa vontade dos parlamentares.
No caso das ações de combate ao crime organizado, o desafio é ainda maior para o Planalto. Com uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) aguardando despacho de Alcolumbre há dois meses, o governo tenta, mais uma vez, ganhar espaço no debate da questão.
Os R$ 11 bilhões previstos para uma série de investimentos, como em equipamentos e presídios, demonstram a importância da segurança pública para a campanha de Lula, uma vez que o campo da oposição e o principal adversário, Flávio Bolsonaro, dominam o tema.
“Reduzir a sensação de insegurança da população em apenas cinco meses é uma tarefa extremamente complexa. O governo pode até injetar dinheiro, mas os efeitos concretos dependem muito da capacidade operacional dos estados”, observou Medeiros.
O cientista político avaliou que ainda há potencial para que as medidas anunciadas pelo governo conquistem uma “expectativa favorável no curto prazo”. “Ainda assim, a persistência da inflação sobre o consumo básico pode enfraquecer os efeitos políticos pretendidos pelo governo.”
Desafios
A estratégia de aproveitar o Planalto para conquistar votos pode acabar saindo caro, podendo transferir ao próximo governo “um cenário fiscal ainda mais delicado, com menos margem de manobra e uma governabilidade possivelmente mais difícil no Congresso”.
“O eleitor brasileiro sente muito mais o preço do supermercado do que indicadores macroeconômicos ou anúncios do governo. O desafio do Planalto será transformar percepção positiva em sensação real de alívio econômico no cotidiano da população”, acrescentou o cientista político.
Segundo interlocutores do governo, a estratégia contra Flávio Bolsonaro será a de insistir na repercussão de reportagens da imprensa para construir uma perspectiva de que o filho do ex-presidente seria um político inapropriado para comandar país. “A história real de Flávio é a corda que vai enforcar a candidatura dele”, disse uma fonte próxima ao presidente do PT, Edinho Silva, um dos coordenadores da campanha de Lula à reeleição.
Na semana passada, o site do PT publicou série de materiais de ataque ao pré-candidato do PL. Em um deles, uma das instituições que coordenam a campanha de Lula à reeleição foca nas acusações de que Flávio Bolsonaro organizava esquema conhecido como “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), entre os anos de 2003 a 2007, período em que foi deputado estadual.
