Eleições

Cautela do Centrão com Flávio

Reação errática do pré-candidato do PL à crise deflagrada pelas relações com dono do Master deixa oposição dividida

A sequência de desgastes envolvendo o senador Flávio Bolsonaro após a revelação das relações que mantinha com o empresário Daniel Vorcaro aprofundou o clima de apreensão no Partido Liberal (PL) e ampliou as dúvidas sobre a força política do filho 01 de Jair Bolsonaro para a disputa presidencial. Nos bastidores do Congresso, parlamentares da oposição admitem frustração com o desgaste recente, embora descartem, no momento, outras alternativas.

A nova onda de turbulência política ganhou força após o PL acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar suspender a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg que apontou queda de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto e avanço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cenários eleitorais. A legenda alegou que os entrevistados teriam sido expostos ao áudio envolvendo Flávio e Vorcaro antes de responder a perguntas de cunho eleitoral, criando, segundo o partido, associação negativa entre o senador, o Banco Master e o banqueiro preso.

Na ação apresentada ao TSE, o PL argumentou que perguntas da pesquisa faziam referências a "fraudes financeiras", "escândalo do Banco Master" e "envolvimento direto" de Flávio Bolsonaro, extrapolando o caráter informativo de um levantamento eleitoral. O movimento jurídico se deu em meio à repercussão de conversas entre o senador e Vorcaro sobre o financiamento do filme Dark horse, inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em resposta às acusações, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, afirmou que não houve interferência do conteúdo do áudio nas respostas eleitorais. Segundo ele, os participantes só tiveram acesso ao material após concluírem o questionário principal de intenção de voto e não poderiam alterar as respostas posteriormente. O executivo acrescentou ainda que toda a metodologia havia sido previamente registrada no TSE, conforme exige a legislação.

Apesar da reação pública do partido, o caso ampliou a preocupação do PL. Nos bastidores, aliados avaliam que a associação de Flávio com Vorcaro passou a gerar ruídos no mercado financeiro, especialmente entre empresários e investidores da Faria Lima, diante das investigações envolvendo o Banco Master. O episódio levou a bancada da sigla a convocar uma reunião emergencial em Brasília para alinhar discurso e reduzir danos políticos.

Após o encontro, Flávio Bolsonaro admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro depois que o empresário passou a ser alvo de medidas judiciais. O senador afirmou, porém, que a relação existe exclusivamente em razão da necessidade de financiamento para o filme sobre o pai. Disse ainda ter solicitado prestação de contas detalhada dos recursos investidos no projeto e declarou que eventuais valores futuros obtidos com a produção permanecerão à disposição das autoridades brasileiras.

Embora aliados mantenham o discurso público de unidade, parlamentares do PL reconhecem reservadamente desgaste político relevante. Senadores relatam que a reunião com a bancada teve tom mais defensivo do que ofensivo, marcada por cobranças internas por maior organização política e preocupação crescente com a dificuldade de manter o alinhamento de partidos do Centrão.

"A reunião serviu mais para conter desgaste do que para mostrar força", resumiu um senador aliado, sob reserva. A avaliação, compartilhada por integrantes do partido, é que o apoio ao senador permanece, mas já não mobiliza o mesmo entusiasmo observado meses atrás.

Clima no Congresso

Nos corredores do Congresso, o ambiente é descrito como de cautela. Lideranças do Centrão passaram a adotar postura mais pragmática diante dos últimos episódios envolvendo o entorno bolsonarista. Interlocutores de partidos como PP, União Brasil e PSD afirmam que o diálogo com o PL segue aberto, mas cresce a resistência a um alinhamento automático em torno do grupo ligado ao bolsonarismo.

A percepção entre parlamentares é que parte das siglas começou a mapear alternativas para 2026 sem depender exclusivamente da candidatura de Flávio. Um cacique do Centrão resumiu o sentimento: ninguém quer romper agora, mas também há resistência em ficar vinculado a um único projeto político.

Na oposição, o discurso oficial segue sendo de unidade, mas longe dos microfones, o clima é de precaução. Senadores admitem preocupação com a perda de capacidade de mobilização e o risco de isolamento político dentro do Congresso. A leitura interna é que a reunião convocada por Flávio Bolsonaro teve como principal objetivo ganhar tempo e impedir uma dispersão mais acelerada de aliados.

Flanco aberto

Governistas avaliam que a turbulência abriu espaço para ampliar negociações com partidos de centro. No Planalto, a leitura é que o Centrão não bolsonarista ficou menos disposto a confrontos diretos enquanto observa a reorganização da oposição no Senado.

Pelo relato dos próprios aliados, o cenário ainda não é de ruptura, mas de desgaste gradual. O apoio dentro do PL permanece formalmente preservado, porém com menos entusiasmo e mais cobrança interna. Entre partidos do Centrão, há uma postura de espera, de manter canais abertos sem apostar todas as fichas em um único nome.

Além disso, apesar da frustração de parte dos parlamentares do PL com o desgaste do pré-candidato do PL, Michelle Bolsonaro não é considerada alternativa consolidada nem mesmo entre alas moderadas da sigla. A avaliação reservada de parlamentares é que a viabilidade da ex-primeira-dama encontra resistência, inclusive, pela falta de confiança de Jair Bolsonaro e dos filhos nela como principal herdeira política.

 

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